A magia de José Ruy

Tenho dificuldade em falar de José Ruy no passado. Apesar dos seus 92 anos, irradiava juventude, sempre a pensar no próximo livro que iria publicar, e que já estava delineado e desenhado na sua cabeça. Se há autor que simboliza hoje em Portugal a Banda Desenhada ou as "histórias de quadradinhos", como preferia designar a 9.ª Arte (a seguir ao cinema e à fotografia e antes dos videojogos), é José Ruy, com mais de oitenta álbuns publicados, entre os quais se destacam as adaptações de obras literárias clássicas como Os Lusíadas, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Ubirajara de José de Alencar, O Bobo de Alexandre Herculano, além de diversos outros temas desde a História às biografias, passando pela memória do Diário de Notícias, pelas viagens, como as de Porto Bomvento, ou pelas vidas de Almeida Garrett, João de Deus, Bernardo Santareno, Pero da Covilhã, Pedro Álvares Cabral, Aristides de Sousa Mendes, Leonardo Coimbra, Humberto Delgado, Charlie Chaplin ou Carolina Beatriz Ângelo. E graças ao encontro com um saudoso amigo comum, Amadeu Ferreira, ilustrou a história da língua e do povo mirandês.

Em vez de seguir arquitetura, como seu pai desejara, preferiu o curso de Desenhador Litográfico na "sua" Escola António Arroio, onde conheceu figuras marcantes da Banda Desenhada portuguesa como Eduardo Teixeira Coelho e José Garcês. Tornou-se assim mestre da arte que cultivou desde muito cedo, como um verdadeiro artesão. Com apenas 14 anos, publicou o seu primeiro trabalho de ilustração gráfica na revista O Papagaio de Adolfo Simões Müller com a qual passa a colaborar regularmente, fazendo ilustrações e escrevendo contos. Mas foi com O Mosquito que tudo começou, quando, na infância, com apenas 6 anos, José Ruy se entusiasmou com as histórias ilustradas. Quando em 1952 começou a colaborar com a sua produção, sentiu um enorme entusiasmo, por poder colocar o seu nome enquanto autor, numa equipa, na qual pontificavam António Cardoso Lopes Júnior (Tiotónio) e Raúl Correia. Antes, já aí trabalhara, na legendagem e preparação de cores. E nesse mesmo ano participa como organizador e artista na Exposição de Literatura Infantil. Na segunda série de O Mosquito, em 1960, foi diretor artístico da publicação, mas, ao longo da vida, distribuiu a sua colaboração pelo
Cavaleiro Andante, Camarada, Mundo de Aventuras ou Tintin, para além de ser responsável gráfico em vários projetos na Bertrand, nas Publicações Europa-América, na Editorial Íbis e Editorial Notícias. Fruto de um permanente entusiasmo criativo, publicou recentemente, ainda em 2020, O Heroísmo de uma Vitória, sobre a guerra civil entre liberais e absolutistas e sobre a Regência de D. Pedro na Ilha Terceira, nos Açores, tendo ainda deixado pronto para publicação o primeiro volume das Lendas japonesas, de Wenceslau de Moraes, que ficou inédito.

José Ruy contribuiu decisivamente para tornar a Amadora capital da Banda Desenhada.

José Ruy contribuiu decisivamente para tornar a Amadora capital da Banda Desenhada, com uma grande riqueza nas iniciativas e no aprofundamento dos conhecimentos nesse domínio. Contudo, à sua ação aliaram-se uma plêiade de artistas, o carisma e a tradição da 9.ª Arte. Não esquecerei ainda a memorável sessão que animou no Centro Nacional de Cultura sobre a sua experiência, designadamente, recordando o tempo em que o ilustrador era obrigado a trabalhar diretamente na matriz das gravuras para acertos de última hora e para garantir a melhor legibilidade das pranchas e a qualidade das publicações. Então, até a escolha da cor da capa pelo artista era importante para mobilizar os leitores e o público, aguçando-lhes a curiosidade e o interesse. Desenhador, autor e artífice, José Ruy faz-nos reviver os seus heróis através de uma encenação primorosa, pelo traço seguro e pela cor vibrante, capazes de nos atrair em nome de um humanismo vivo.


Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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