O senso comum, baseado em anos e anos de investigação focada apenas na relação que as crianças estabelecem com a mãe, tem assumido que "a mãe é que sabe". A mãe é a figura primária de referência afetiva da criança e a mãe é que sabe cuidar e educar..E o pai, será que não sabe?.Temos assistido nas últimas décadas a mudanças sociais de relevo, com especial destaque para a progressiva entrada da mulher no espaço público e profissional, o aumento exponencial de divórcios e separações e as consequentes alterações no desempenho dos papéis parentais. A dinâmica mais tradicional do "pai provedor" e da "mãe cuidadora" tem vindo a esbater-se de forma progressiva, procurando ambos, pais e mães, maior equilíbrio na esfera pública, mas também na esfera privada. Um equilíbrio que ainda nao se alcançou, é certo, mas para o qual caminhamos..Neste contexto, é importante centrar o nosso olhar não apenas na relação mãe-criança, mas também nas relações entre os vários elementos do sistema familiar. Sabendo que a criança interage de uma forma contínua e estável, não apenas com a mãe mas também com outras figuras significativas, como o pai, os irmãos ou os avós..Contrariando ideias tradicionais, a investigação mais recente tem dado conta de que a maioria das crianças encontra-se vinculada, no final do primeiro ano de vida, a outras figuras para além da mãe, nomeadamente ao pai. Não obstante estes resultados, a figura paterna ainda é vista como secundária, relativamente à mãe..Quando falamos de vinculação, falamos de um forte laço afetivo que se estabelece por volta dos 7/8 meses e que liga a criança a uma ou mais figuras estáveis na sua vida, tidas como únicas, em diferentes momentos e contextos. A criança tem então a capacidade de estabelecer vínculos afetivos com mais do que uma figura cuidadora, desde que esta se mostre presente, envolvida e sensível..Sabemos ainda que existem diferenças na forma como o pai e a mãe interagem com os filhos, relacionadas com os seus valores parentais e que tendem a complementar-se. Apesar destas diferenças, a criança é capaz de usar ambos os pais como base segura, o que lhe permite explorar o mundo à sua volta..Aproxima-se o Dia do Pai. Um dia de enorme felicidade para muitas crianças e pais e, ao mesmo tempo, de profunda tristeza para outros tantos. Refiro-me em concreto às situações de conflito parental em que a criança, não raras vezes, é instrumentalizada e afastada do pai. E é pensando nestes casos em particular que importa sublinhar, uma vez mais, que, em abstrato, os pais são tão capazes como as mães de cuidar dos seus filhos, mostrando-se igualmente competentes, sensíveis e responsivos. É deste pressuposto de base que deve partir qualquer avaliação forense ou decisão judicial, no que respeita à definição do regime de convívios da criança com cada um dos pais..Porque a mãe é que sabe... mas o pai também sabe.. Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal