A livre e o legislador

Quarta-feira, ao final da noite, o presidente dos Estados Unidos da América telefonou a uma congressista. Não para persuadi-la a mudar um sentido de voto, para convencê-la a apoiar um pacote legislativo ou para qualquer convite institucional da Casa Branca. Joe Biden, democrata, ligou a Liz Cheney, republicana, para lamentar a sua derrota nas primárias para as intercalares deste outono. O gesto, à primeira vista peculiar dada a importância de uma vitória democrata para a restante presidência de Biden, tem um significado.

"Há dois anos, ganhei estas primárias com 73% dos votos e poderia tê-lo feito facilmente outra vez. Mas precisava de ter apoiado a mentira de Donald Trump sobre as eleições presidenciais. E isso nunca farei", afirmou Cheney, no discurso de concessão. Filha de um peso-pesado do partido, foi uma entre dez congressistas que votaram favoravelmente o impeachment a Donald Trump após a insurreição de janeiro de 2020, que teria impedido o ex-presidente de ser recandidato em 2024. Apenas dois dessa dezena mantiveram o apoio do Partido Republicano para ficarem no Congresso. Liz Cheney, talvez a mais vocal destes, foi preterida no Wyoming por uma advogada endorsada por Trump.

"Donald Trump continua a representar uma ameaça à nossa república. Farei o que for preciso para impedi-lo de regressar à Casa Branca", assumiu. "Um dos dois maiores partidos dos Estados Unidos da América tornou-se um culto de personalidade. E é o meu partido", rematou. Olhando para o modo como até Mike Pence, que foi número 2 de Trump, se viu forçado a pedir ao partido para parar de atacar o FBI, o diagnóstico não estará longe da verdade.

Qual o futuro de uma democracia bipartidária perante a radicalização do seu partido fundador e a ausência de sucessores no seu partido no poder? Essa é uma das questões que o outro lado do Atlântico lançou este agosto. A outra, não menos importante, tem que ver não com uma derrota interna, como a de Liz Cheney, mas com uma vitória política, de Joe Biden.

Este mês, o segundo maior poluidor do mundo ‒ a América ‒ aprovou o maior pacote legislativo dedicado às alterações climáticas neste século. Nas sondagens, passou despercebido. Na imprensa internacional, idem. Integrado na Lei da Redução da Inflação (the inflation reduction act), já ratificada pelo senado, abrange medidas relacionadas com impostos, saúde e ambiente num total de 700 mil milhões de dólares. Fruto de um ano de negociações, inclui incentivos ao desenvolvimento de tecnologias produtoras de energia limpa (cleantech industry) e ecologicamente responsáveis, mais impostos às grandes empresas com a redução do défice como foco e um aumento no cofinanciamento de medicamentos para idosos e no acesso a seguros de saúde. O objetivo foi fixado no regresso ao nível de emissões de carbono pré-2005, até ao final desta década. Apenas empresas com lucros superiores a mil milhões de dólares anuais serão taxadas e é visível uma preocupação com o retorno da indústria ao território nacional. O fim da ideia de um capitalismo global ‒ desregulado, sem nação ‒ parece ter tido início na sua pátria-mãe. As tarifas que a administração Trump impingiu aos produtos chineses, por exemplo, não foram levantadas por Joe Biden.

O presidente norte-americano, que celebrará 80 anos no mês das intercalares, continua no ativo sendo três anos mais velho do que W. Bush, que deixou o cargo em 2009, e quatro anos mais velho do que Clinton, que saiu de funções em 2001. O seu feito legislativo deste verão não teve qualquer impacto nos índices de popularidade, e as reformas que levou a bom porto só se farão sentir muito depois das eleições deste novembro. Conseguiu-o no primeiro ano e meio de presidência, apesar de um ambiente político polarizado e de uma economia a sofrer as dores da inflação, quase sem reconhecimento. A morte do líder da Al-Qaeda no mês passado, em Cabul, teria valido o mandato para a maioria dos presidentes. O seu concorrente ser investigado pelas secções de contraespionagem e crime organizado do Departamento de Justiça seria mais do que suficiente para dormir descansado. Mas a guerra na Ucrânia, o cerco a Taiwan e a incerteza constitucional que se vive nos Estados Unidos continuarão a tirar o sono a Sleepy Joe, que, pelos vistos, não dorme assim tanto.

Pode uma democracia sobreviver quanto o sucesso político é medido em raiva ‒ e não em políticas públicas ‒ e quando a vontade política é guiada pela tribo, e não pela convicção?

Pode.

Não por muito tempo.


Colunista

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