“A maior parte do eleitorado da AD e da Iniciativa Liberal votou em António José Seguro”. A frase é do centrista Diogo Feio, proferida esta segunda-feira na SIC-N, em comentário ao resultado da segunda volta das presidenciais. Por mais que possa custar aos líderes do PSD, do CDS-PP e da IL, o que diz não é passível de contestação: para obter uma percentagem de quase 67%, o eleito precisou de grande parte dos votos do centro-direita e até da direita. Isso mesmo demonstra, além da mera aritmética, a análise provisória publicada pelo politólogo Pedro Magalhães no Twitter/X: 77% dos que votaram Marques Mendes na primeira volta puseram a cruz em Seguro na segunda; o mesmo é verdade para 58% dos que tinham querido ver o candidato da Iniciativa Liberal em Belém e 58% dos que não tinham comparecido na primeira volta.Também 68% dos que dizem ter votado AD nas últimas legislativas, assim como 80% dos que votaram noutros partidos que não o PS e o Chega e — o que é digno de nota — 59% dos que se haviam abstido nessa ocasião, escolheram na segunda volta o ex-secretário-geral do Partido Socialista.Ou seja, uma larguíssima maioria deixou claro que, para evitar a vitória do candidato da extrema-direita, não se importam de votar em alguém que é de uma área política com a qual em geral (ou pelo menos nos últimos tempos, convindo lembrar que há escassos quatro anos, em 2022, o PS teve maioria absoluta) não se identificam ou até contra a qual — caso dos eleitores associados ao candidato da IL, partido que fala de “socialismo” como se fosse uma doença pior que a lepra — se definem politicamente.E esta maioria dos eleitores do centro-direita e da direita “liberal” (com aspas, sim) fê-lo a despeito dos sinais que lhes foram transmitidos pelo líder do PSD e da coligação governamental e pelas figuras gradas do atual CDS-PP, assim como pelo detentor do poder real na IL (graças aos 900 mil votos que amealhou na primeira volta), João Cotrim Figueiredo.Montenegro, recordemos, afirmou que “o espaço político do PSD” não estava representado na segunda volta, pelo que não ia tomar posição entre dois candidatos — os quais, a despeito de ter sido variadíssimas vezes insultado e até caluniado por Ventura (lembremos que este o colocou num cartaz ao lado de José Sócrates, que está em julgamento por vários crimes, como representante de “50 anos de corrupção” e apelidou o PSD por ele dirigido de “prostituta política”), referiu, sem efetuar qualquer distinção qualitativa, como “o candidato que representa o espaço político à esquerda do PSD” e “o candidato que representa o espaço político à direita do PSD”. Por outras palavras, o primeiro-ministro fez saber que tanto se lhe dava que ganhasse Ventura, que lhe chama de tudo, ou Seguro, e que se calhar até ia fazer desenhos no boletim.Já o deputado do CDS-PP Paulo Núncio, numa performance digna do presidente da bancada do Chega (ou do próprio Ventura), berrou no parlamento contra quem (caso dos signatários do Manifesto de não-socialistas por Seguro) apresentava a segunda volta das presidenciais como uma escolha entre valores democráticos e o seu contrário, mostrando para onde aponta o seu coração: “Era só mais o que faltava que o único voto legítimo e democrático fosse o voto no candidato do Partido Socialista.”Cotrim Figueiredo foi um pouco mais sonso; ao contrário de Marques Mendes e Gouveia e Melo, evitou sempre dizer que ia votar em Seguro (só que não votava Ventura), acabando por afirmar, a uma semana do ato eleitoral, que a escolha era “entre andar para trás e ficar parado, que é uma coisa horrível” e que percebia muito bem quem ia votar em branco ou abster-se”, mas que pessoalmente preferia “estar parado a andar para trás”. Esta atitude tão blasé face ao que estava em causa — para Cotrim “andar para trás” não é nada que lhe mereça uma rejeição empolgada — não contagiou, felizmente, a maior parte dos seus eleitores (ainda que 29%, como se constata na análise publicada por Pedro Magalhães, tenham achado que andar para trás é melhor, votando em Ventura, e 12% que tanto fazia, votando branco ou nulo). Podemos, claro, considerar que a maioria dos eleitores de Marques Mendes/AD e de Cotrim/IL votaram Seguro não para — como defendia o citado Manifesto dos não-socialistas por Seguro — preservar os princípios do regime democrático liberal e rejeitar o discurso de ódio, divisionista, populista, racista e calunioso, do Chega, mas por motivos táticos: se a escolha era entre dar força a alguém que assume querer ser o líder da direita e engolir PSD e IL, e um social-democrata do PS, melhor eleger o segundo, que está muito longe de querer destruir esses dois partidos e se apresenta como um polo de “moderação”. Mas esse, que terá sido decerto o motivo de vários apoios declarados a Seguro — o de um posicionamento tático — e que esperaríamos do primeiro-ministro (talvez um dia venhamos a perceber o que passou pela cabeça de Montenegro para se colocar tão voluntariamente na posição de derrotado nestas presidenciais — será só, como diria Marcelo, uma obstinação “rural”, ou é, na verdade, um radical disfarçado?), não é de todo o da maioria dos eleitores que atravessaram a fronteira da sua área política para eleger o ex-secretário-geral do PS. A generalidade dos eleitores não se move por tática, e muito menos quando chove a cântaros. O que fez as pessoas sair de casa para votar em Seguro, um homem que nunca suscitará paixões assolapadas e de quem muitos até há pouco tempo já nem se lembrariam, não foi o cálculo sobre o xadrez partidário mas a repugnância que sentem por André Ventura e pelo seu teatro do grotesco. Ainda há muita gente — e assim permaneça — que preza a democracia liberal tal como a conhecemos (imperfeita, certo, mas tão generosa na sua promessa de igualdade) e para quem, ao contrário do que sucede com um troca-tintas como Luís Montenegro, não é mesmo não. Podemos discordar, e discordamos, em muita coisa, mas aqui, como em 2022 quando se prefigurou a possibilidade de uma abertura do PSD ao Chega (porque Rui Rio não afastou claramente essa hipótese), ergueu-se, alta e magnificente, uma linha vermelha. Foi mesmo bonito, Portugal.