A língua portuguesa e a UE

Sempre que um país assume a presidência do Conselho Europeu, é organizada uma sessão em Bruxelas para celebrar a sua língua ou línguas nacionais. A 5 de maio, além do Dia Mundial da Língua Portuguesa, comemorado um pouco por todo o mundo, celebrou-se também o Dia da Língua Portuguesa na União Europeia, com um evento subordinado ao tema "O português na encruzilhada", reservado aos tradutores, intérpretes e funcionários europeus com interesse nesta língua. Tive a honra de ser convidada e participar numa mesa-redonda intitulada "Conversas com versões: as veredas que a língua trilhou e o caminho por fazer", juntamente com Edleise Mendes, professora da Universidade Federal da Bahia, e João Melo, jornalista e escritor angolano, também colunista no DN. Cada um de nós deu conta da sua relação pessoal e profissional com a língua portuguesa, de como cresceu em ou com o português; também falámos sobre as nossas perspetivas para o futuro da língua portuguesa e concordámos que esta será cada vez mais meridional e pluricêntrica, de todos os que a falam e de ninguém em particular, mais rica de sotaques, cores, cheiros e sabores, mais mestiça e mais apta para desempenhar o seu papel de grande língua do mundo.

Uma língua, qualquer língua, possui um léxico tanto mais extenso e rico quanto maiores forem as exigências que se lhe apresentam e a pluralidade de contextos e situações em que tiver de ser usada. Uma língua apenas de âmbito familiar e do dia-a-dia possuirá seguramente um vocabulário mais reduzido e pouco diversificado do que uma língua que, além de falada em diferentes geografias, é usada nos contextos mais diversos - formais e informais, orais e escritos, gerais e especializados, oficiais e legislativos, educativos, científicos, tecnológicos, multilingues, multiculturais. Quanto mais as línguas crescem, mais mestiças se tornam - é inevitável. Foi mestiço o latim; são mestiças grandes línguas como o inglês, o espanhol, o francês, o português; a extensão dos seus vocabulários faz-se também por importação de palavras de outras línguas, nestas disponíveis para denominar conceitos que são novos para a língua recetora. A importação de palavras não é, por si só, uma desvantagem, mas carece de observação, análise e registo sistemáticos, processos que por aqui se confundem frequentemente com remoques puristas e prescrições pontuais, tantas vezes pouco fundamentadas.

Muita da inovação lexical de uma língua vem da tradução, da interpretação, da redação especializada. Desde a adesão de Portugal à CEE, há 35 anos, a língua portuguesa tem sido enriquecida por palavras que nela são introduzidas pelos tradutores e terminólogos das instituições europeias, a quem compete, todos os dias, verter para a nossa língua, e dela para outras, toda a documentação produzida em contexto comunitário.

Quem traduz ou estuda tradução em Portugal cruzou-se inevitavelmente, e.g., com a IATE (Interactive Terminology for Europe), base de dados multilingue, alimentada pelos serviços linguísticos das várias línguas da UE, que conta atualmente com mais de 950 mil termos. Nem tudo o que encontramos na IATE é perfeito ou inquestionável, mas é o que de mais sistemático se faz ao nível da descrição e da normalização terminológicas.

Quando se fizer a história da língua portuguesa das últimas décadas, obrigatória será a menção ao enriquecimento que o seu léxico conheceu graças à adesão de Portugal à UE e ao trabalho constante dos funcionários do Departamento de Língua Portuguesa.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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