Concluídas as festas de Natal e Ano Novo, as águas - as vidas - voltam por estes dias ao seu curso habitual. Já regressaram a casa aquelas e aqueles que foram "à terra", aos seus lugares de origem, para as celebrar. Já voltaram ao trabalho os que puderam descansar. E já estão em muitas cabeças os propósitos - mas também as inquietações - típicos de um novo começo. É um fenómeno generalizado, mas com características particulares para um grupo específico de europeus: são os 13,3 milhões de cidadãos de países da União que vivem noutro Estado-Membro (dados do Eurostat). Representam 3% da população como um todo e são, sem dúvida, uma das principais forças para a construção do projeto comum europeu, seja pelo trabalho, seja pelo afeto..Muitos destes europeus aproveitam as festividades tradicionais da família para ir "à terra". De mochila às costas, trólei numa mão e entregando a outra ao telemóvel, misturam-se e confundem-se na mole de passageiros, mas certamente já se terão perguntado: "Afinal, donde sou? Do meu país de origem? Daquele que me acolhe e dá trabalho? Porventura de algum lugar solitário, por vezes amargo, suspenso entre os dois"? Este já não é o tempo da "mala de cartão", mas....Mais de três milhões de romenos, um milhão e meio de polacos e outros tantos italianos e um milhão de portugueses constituem os quatro maiores grupos nacionais de deslocados para outros países da União Europeia. E é espantoso constatar que, em alguns casos, os expatriados representam uma quota imponente do segmento laboral em idade ativa (dos 20 aos 65 anos) nos respetivos países: 18% da população romena, 17% croatas, 10% portugueses... - tanta energia, quantas vidas se constroem noutros lugares. Em 2010 a média de europeus deslocados era de 2,4%; em 2020 subia para 3,3% e, em geral, tudo indica que a maré continua a subir e com ela cresce o projeto europeu. Em resumo, cada um com sua história - e suas respostas mutáveis - esses 13 milhões de pessoas, herdeiros de muitas linhagens, são a ponta de lança na construção de um novo espírito de pertença europeu. Os tempos que vivemos exigem que a Europa dê um grande salto na integração..Dos flagelos pandémico e climático às ameaças à ordem global vindos das superpotências - a começar na Rússia, que reacendeu a guerra no nosso continente - a única resposta plausível é mais união, muito mais União Europeia..A linhagem de europeus com uma pátria-mãe (que não escolheram e os formou) e outra como pátria-adotiva (que escolheram depois) aí está, para sustentar esse salto integrador com a sua própria existência. Podem os europeus deslocados ter dias de dúvidas, saudades, quantas saudades, mas é certamente nestes corações de duas assoalhadas que a batida, mesmo que impercetível, oxigena mais o caminho da história europeia na direção certa. E, por paradoxal que pareça, são os rebentamentos e os estilhaços da guerra que reacendem nos corações europeus a velha utopia renascentista que se resume na palavra paz. A mesma utopia que animou Erasmo - filósofo humanista, amigo de Tomás Moro e do nosso Damião de Góis - o rosto mais profético do pacifismo. Ele que passou a vida fugindo da peste e dos seus inimigos, enquanto lutava contra a barbárie instigada pelo fanatismo e pelo nacionalismo; defendeu que o mundo inteiro é a nossa pátria, concebeu uma Europa unida como aliança de culturas; defendeu a luz contra as trevas, a inteligência contra as armas, e o diálogo contra a algazarra, o ódio e a guerra. Para ele, mais que um território, a Europa era uma ideia moral e a sua bandeira, paz, diversidade, tolerância e universalismo. Assim seja!.Jornalista