A libertação e a normalização
António Costa já anunciou para o final de setembro a libertação da sociedade e o regresso a uma normalidade que será diferente, durante muito tempo, da anterior a fevereiro de 2020.
Essa festa da "libertação" com data já marcada colide, entretanto, com outro regresso à normalidade. O primeiro sinal de uma vida "normal" nas sociedades é o facto de haver aulas e de as escolas funcionarem.
O presidente-professor, preocupado com os alunos, anda a insistir, há várias semanas, na necessidade da vacinação de jovens entre os 12 e os 15 anos. As variações de Marcelo já foram várias, as palavras corrigidas algumas vezes, na tentativa de evitar confrontos com o governo ou com as autoridades de saúde. Mas está bastante clara a posição de Belém: vacinar, todos e depressa.
Gouveia e Melo, o novo herói nacional, já veio avisar que, se é para avançar, então tem de ser já. As declarações, que se podem atribuir a uma estrita preocupação com a logística, não deixam de ser estranhas: forçar uma decisão rápida, ainda que por razões operacionais, não deixa de ser uma pressão sobre os decisores.
A batalha de argumentos segue-se no espaço público, entre os que acham que a vacinação para a faixa etária entre os 12 e os 15 anos deve avançar já e os que acham que são precisos mais dados para tomar uma decisão definitiva.
Claro que, entre estes, além de políticos, professores e pais, também há médicos. E, como quase sempre, mesmo entre a classe médica, investigadores e cientistas, há duas correntes.
A decisão é (vai ser?) da Direção-Geral da Saúde, a autoridade nacional à qual compete dar - ou não - luz verde à vacinação dos 12-15 anos. Mas, ao contrário do que acontece noutros países em caso de pandemia ou grave crise sanitária, em que as autoridades de saúde se sobrepõem aos decisores políticos, em Portugal, a DGS está subordinada ao governo.
Na prática, será Costa a decidir se avança ou não a vacinação nesta faixa etária.
Como noutras decisões dos últimos 18 meses, a avaliação será política e não técnica. Mas, no dia em que for comunicada, virá sustentada em pareceres técnicos e dados já recolhidos noutros países, que justificarão o caminho escolhido.
Na prática, Marcelo está a fazer tudo o que pode, publicamente, para forçar o governo a decidir depressa e, do ponto de viste dele, bem. O Presidente parece mais preocupado em garantir a "normalidade" no ano letivo que arranca daqui a um mês, com todas as condições para que ele decorra sem interrupções, paragens, quarentenas ou aulas remotas, do que em alinhar na festa da "libertação" da sociedade, como se a partir desse dia prometido por Costa o vírus deixasse de existir e voltássemos a viver felizes para sempre.
Um dia, no futuro, talvez se perceba, quem sabe através da própria diretora-geral, qual foi, na verdade, o papel da DGS em determinadas decisões "sanitárias" e se elas foram ou não condicionadas pela política. Basta lembrar o início da pandemia, quando a recomendação era para ignorar as máscaras - porque não existiam - para, semanas depois e até hoje, se terem tornado indispensáveis no nosso dia-a-dia.
Jornalista

