A liberdade de muletas

O Estado partiu-lhe uma perna, de seguida ofereceu-lhe uma muleta e ainda espera a sua gratidão? O governo devolveu aos cidadãos uma parte dos seus direitos, liberdades e garantias, restituiu uma fatia daquilo que nos subtraiu (fora danos e mortes irreversíveis) e ainda é suposto sentirmo-nos abençoados? A gestão da Covid em Portugal foi sempre política, deixou 18 mil mortos, uma epidemia de patologias psicológicas, uma economia arruinada, enfim, um caos na saúde pública e o presente momento não é excepção. Desde logo, a palermia prossegue: se antes tínhamos um vírus de pontualidade britânica que atacava só após as 13 horas ou apenas aos fins de semana, agora o vírus tem calendário e abranda em Outubro. Se a máscara na rua nunca foi obrigatória e em Setembro terminámos com essa obrigação que nunca foi obrigatória, agora no décimo mês acabamos com o terminus da obrigação do que jamais foi obrigatório. Obrigada, executivo. Cristalino. Agora para entrar num estádio ao ar livre preciso de certificado ou teste mas num restaurante nada será necessário.

Teria graça se não fosse trágico. Para trás ficaram três prioridades. Em primeiro, os lares - ainda nem sequer há relatórios que permitam compreender o que sucedeu nestes anos e acautelar o futuro. Ou seja, no que concerne o principal grupo de risco persiste a nebulosa. Em segundo, as crianças. Estas já tiveram dois anos escolares destruídos (menos aulas e apoios do que a média da OCDE) mas continuam sujeitas a máscaras - com quase todo o pessoal vacinado - e a quarentenas cegas. Por fim, aquela que devia ser outra prioridade, a análise rigorosa aos números, persiste pantanosa. Não se muda aquilo que não se pode medir e as bases de dados mostram enormes contradições, não levam ao cruzamento e não revelam os brutos. Portanto, desconhece-se a situação epidemiológica - mau prognóstico para futuras decisões.

De resto, este momento é de liberdade falsete (há libertação quando temos que revelar os nossos dados pessoais de saúde para entrar numa discoteca?). E, por fim, talvez seja também uma cantiga da cigarra ou até uma canção do cisne. Afinal, mesmo com 80% da população vacinada, por exemplo Israel (população semelhante à nossa) assistiu a surtos com um número de casos quase tão elevado como o de Janeiro, quando não tinham vacinas e eram (empatados com Portugal) o país do Mundo com maior incidência. De resto, por cá em agosto e setembro, a percentagem de cuidados intensivos (0,4%) ou mortes (0,04%) é igual ou pior do que em período homólogo. No verão de 2020 sem vacinas, tínhamos em UCI 0,3% dos casos activos e 0,008% de mortos. Portanto, neste inverno, ainda por cima com o sazonal aumento das infecções respiratórias, que ditará o primeiro-ministro? Mais doses? Mais confinamentos? Vacinação de recém -nascidos? Guetização dos não vacinados? Tudo isto quando se sabe que a imunização maciça pode originar variantes resistentes e fenómenos imunológicos que comprometam a resposta a futuras epidemias por coronavírus?

Fundamental é finalmente admitir que a maioria das medidas adoptadas até agora foi inútil ou até prejudicial, que estamos perante uma inescapável doença respiratória viral, que nunca alcançaremos covid zero e que urge atender às tais prioridades, reforçar o sns e os seus profissionais. Quando?!

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a anterior ortografia

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