A liberdade de expressão dos artistas

1. Um concerto, há um mês, em Águeda, ainda ressoa. Pedro Abrunhosa sobre Putin e sobre a Rússia. Há limites à liberdade de expressão artística? Há limites à liberdade de expressão dos artistas? Note-se que não se trata, exatamente, da mesma coisa. Em Águeda aconteceu a fusão das duas possibilidades - num concerto, um artista afirmou a sua posição sobre o que pensa de uma guerra em curso. O artista fundiu as suas afirmações enquanto cidadão e artista, desafiando o público a juntar-se a ele. Esta situação não é nova. Em muitas ocasiões, a música e os espetáculos ao vivo são momentos de afirmação a favor ou contra dada circunstância da atualidade. Em muitas ocasiões, a liberdade de expressão artística tem sido objeto de crítica e debate, seja na música, no teatro, na dança, nas artes visuais, na fotografia, na literatura.

2. Em 1988, Robert Mapplethorpe apresentou a exposição The Perfect Moment, no Institut of Contemporary Arts, em Filadélfia. A exposição retrospetiva integrava uma série de fotografias homoeróticas, de sadomasoquismo gay. As imagens estavam expostas numa sala à parte, com indicação de limitação de acesso em função da idade. A exposição, que no ano seguinte seria apresentada no Museum of Contemporary Art, em Chicago, gerou reações díspares - aclamação dos críticos de arte e oposição de organizações da sociedade civil, como a American Family Association. A controvérsia levou a Corcoran Gallery of Art, em Washington DC, a cancelar a apresentação da exposição (aliás, estas fotografias gerariam, 30 anos depois, polémicas semelhantes numa exposição das mesmas na Fundação de Serralves, no Porto). O debate em torno desta exposição na sociedade americana foi aceso, sobre os limites à liberdade de expressão artística, sobre a "arte indecente", sobre o que é arte e o que é pornografia, sobre até que ponto fundos públicos podem suportar certos tipos de arte. O facto de Mapplethorpe ser homossexual terá sido também um elemento presente na discussão.

3. Pedro Abrunhosa é um músico português com uma sólida formação musical. Ao longo da sua vida pública, tem tomado posições com as quais nem sempre concordo. Mas não é preciso concordar com alguém para defender o seu direito à liberdade de expressão - esse é um dos princípios básicos da democracia. A música Talvez F****, de 1995, é indecente? 24 anos depois continua a ser uma arma. A arma dos artistas é a sua capacidade de criar, comunicar, partilhar, gerar pensamento, emoção, ação, em torno, a propósito, do seu trabalho criativo. Livremente, Pedro Abrunhosa usa a sua arte para criticar a Rússia. Viva a liberdade.

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