Quem circulava no Aeroporto Juscelino Kubitschek na segunda-feira, 25 de abril, não ganhou para o susto: a funcionária do balcão da companhia aérea Latam foi atingida pelos estilhaços de um tiro. Em depoimento à polícia, o autor do disparo garantiu que se tratou de um acidente e foi libertado..O nome do atirador? Milton Ribeiro, o ministro da Educação demitido dias antes por estar envolvido num esquema de corrupção em que pastores evangélicos, como ele, cobravam barras de ouro e vendiam Bíblias a prefeitos em troca de verbas oficiais..Aquele tiro não foi o único constrangimento recente nas hostes bolsonaristas. O ex-polícia Gabriel Monteiro, vereador do Rio de Janeiro pelo partido do presidente e famoso por gravar no YouTube, num tom justiceiro, as ações em que participava, tem sete dias para se defender de um processo que pode levar à suspensão do mandato..Ele foi apanhado pela TV Globo a fabricar as cenas policiais, pagando a cidadãos sem-abrigo para fingirem assaltos, que ele depois resolveria, e manipulando o discurso de crianças, a quem supostamente oferecia comida..O polícia-justiceiro-deputado-bolsonarista é ainda acusado de assédio sexual, violação e pedofilia..O dr. Jairinho, braço direito do bispo da IURD Marcelo Crivella na prefeitura do Rio, e apoiante incondicional de Bolsonaro, também está sob mediático julgamento: é acusado de ter assassinado o enteado. Henry, 4 anos, sofreu lesões no crânio, ferimentos internos e hematomas nos membros superiores, segundo relatório médico..Bolsonarista convicta e amiga da primeira-dama, a deputada federal Flordelis, pastora, conhece no dia 9 a sua sentença. Segundo a polícia, ela mandou executar o marido, pastor Anderson Carmo, com a ajuda de sete filhos do casal e uma neta..Apesar da deputada federal, com uma sinistra noção de coesão familiar, dos vereadores acusados de matar crianças, um, e de pedofilia, outro, e do ex-ministro armado que aterroriza aeroportos, no Twitter, um dos charcos onde o bolsonarismo nada, o clima é de festa. Motivo: a rede social vai ser comprada pelo multimilionário Elon Musk, em nome, segundo o próprio, da "liberdade de expressão"..A mesma "liberdade de expressão" que marcou a campanha presidencial de 2018. Na ocasião, os spin doctors de Bolsonaro espalharam que o rival Fernando Haddad (PT), ia, caso ganhasse, impor biberões em forma de pénis para combater a homofobia desde o berço e forjaram, numa montagem grosseira, uma entrevista do candidato a dizer que competia ao Estado, e não aos pais, definir o género dos recém-nascidos..E que o também candidato Ciro Gomes havia agredido a ex-mulher, a atriz Patrícia Pillar, mesmo depois de esta gravar um vídeo a desmentir o que chamou de "absurdo"..Espalharam ainda que Marielle Franco, a vereadora do Rio de Janeiro cujo assassinato poderia prejudicar a campanha da extrema-direita, engravidara, aos 16 anos, de um traficante famoso..E até que um programa de entretenimento da TV Globo, outro dos supostos inimigos de Bolsonaro, tinha pago obras na casa de Adélio Bispo, o esfaqueador do candidato..Para o bolsonarismo - que defende nas ruas o AI-5, ato institucional da ditadura militar que, em 1968, decretou a censura no país -, ter "liberdade de expressão" significa apenas ter a liberdade de mentir repetida e deslavadamente.. Jornalista, correspondente em São Paulo