A lembrança do "Grand Tour"

Próximo da via dei Condotti, na peregrinação romana, deparámo-nos com o Albergue de Inglaterra, um pequeno hotel na via Boca di Leone, número 14, que marcou o nascimento do turismo, onde estiveram o jovem D. Pedro V e o seu irmão D. Luís, de 26 de junho a 3 de julho de 1855, tendo ambos visitado o Papa Pio IX a 2 de julho, como se assinala, com pompa e circunstância, à entrada.

Ruben Andresen Leitão, criterioso biógrafo (D. Pedro V - Um Homem e um Rei, 1950), explica-nos que "pela morte de D. Maria II, no dia 15 de setembro de 1853, devido à menoridade de El-Rei D. Pedro V, é estabelecida uma regência assumida por D. Fernando de Saxe-Coburgo pai do futuro Rei".

O jovem era menor de idade, pois tinha 16 anos incompletos por um dia, e o pai entende enviá-lo de viagem pela Europa, segundo a tradição setecentista de um "Grand Tour" pelas nações civilizadas. E o biógrafo considera ser nas duas viagens realizadas nos anos de 1854 e 1855 "que aparece de uma forma clara a grandiosidade de pensamentos e de conduta de D. Pedro V. Ia viajar para se instruir e aprender, e não como fonte de prazer e de distração, era uma obrigação que se impunha, considerava seu dever estar pronto a cumprir tal exigência". "Quanto mais bem preparado estivesse, melhor se desempenharia do seu ofício". Começou, assim, por visitar Inglaterra, onde permaneceu a maior parte do tempo, e seguiu depois para a Bélgica, Holanda, Prússia e Áustria, regressando a Lisboa a 17 de setembro. Voltou a partir a 20 de maio de 1855, regressando a Portugal a 14 de agosto, com passagem por França, Itália, Suíça, Bélgica e Ilha de Wight.

Para a primeira viagem, partiu a bordo do vapor Mindelo, a 28 de maio de 1854, e as impressões de Inglaterra são preciosas "porque ele vê e observa tudo". Sentia "necessidade de criação de uma nova mentalidade, aberta, apta à aceitação de novas ideias do progresso", e desejava um maior nivelamento social, criticando a nossa nobreza ignara e longe da instrução e cultura. Estava, assim, claramente determinado sobre a organização de um sistema de instrução pública que fosse a primeira medida séria respeitante ao País.

"Estou certo de que nada produz mais o barbarismo do que a ignorância e nenhuma mais do que a da história, porque a história mostra o que são os homens, mostra o que eles foram, e é a experiência dos séculos; e acrescentarei nenhuma ignorância de história é mais prejudicial do que a da história da civilização". As Artes, as Ciências, a Instrução, as Bibliotecas, encaradas como instituições públicas para todos, a organização das instituições, a economia moderna, a qualidade das produções, o melhor aproveitamento dos recursos, eis o que importava.

"Temo-nos tornado positivos; hoje não se escreverá tão belo estilo como há um século, mais escrevem-se mais verdades e os nossos escritos são mais úteis". Não dispomos dos diários correspondentes aos dias de Roma, por falta de tempo do jovem rei para os escrever, mas Filipa Lowndes Vicente (Viagens e Exposições - D. Pedro V na Europa do século XIX, 2003) esclarece-nos que esta foi uma etapa menos importante do seu itinerário, como o jovem rei confidencia ao seu querido tio príncipe Alberto, marido da Rainha Vitória. Se as antiguidades de Roma "tornam a história uma coisa mais viva que qualquer livro", tudo o mais não é tão interessante, pois o jovem estava mais interessado nos progressos materiais de países como a Inglaterra e a Holanda ou a França. Mesmo assim, refere com gosto: "quando em Roma eu passeava entre as ruínas da capital do mundo dos antigos". Foi um bom encontro este com D. Pedro V e com a importância do seu "Grand Tour". E bem perto está a última morada do genial Domingos António de Sequeira, com os auspícios de Alexandre de Sousa Holstein, que nos fixam a atenção, num outro modo de cultivar o espírito civilizado e livre.


Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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