A legitimação da barbárie
Vinte anos depois de o Afeganistão ter sido tomado aos Talibã, o país foi-lhes entregue numa bandeja, arrasando tudo o que foi conquistado, incluindo as liberdades, o desenvolvimento económico e social e os progressos no combate ao terrorismo. A facilidade com que em poucos dias Cabul caiu nas mãos dos Talibã, foi como se o mundo inteiro nada mais pudesse fazer a não ser assistir com incredulidade, impotência e inquietação à instalação e legitimação da barbárie.
Não deixa de ser surreal que os militares norte-americanos continuem no país e o poder já esteja nas mãos dos Talibã, e que o ex-presidente Ashraf Ghani, que ainda há pouco dias jurava resistir, tenha sido o primeiro a fugir, deixando o país e os afegãos entregues à sua sorte. Afinal, os biliões de dólares investidos para fortalecer as forças militares e as instituições não serviram para nada e não ser agora para reforçar o poder dos Talibã.
Independentemente daquilo que digam os novos donos do poder, os receios de hoje são exatamente iguais aos do período em que governaram o país com uma repressão brutal entre 1996 e 2001, de forma pior que medieval e indiferentes à comunidade internacional, com a diferença que agora a relação de forças geoestratégica mudou.
É inquietante ver como o poder foi tão facilmente oferecido a um dos movimentos mais cruéis e obscurantista que o mundo já conheceu, teocrático, totalitário e impiedoso, com total desprezo pelos direitos e liberdades, sem sequer se colocar a hipótese de eleições, enquanto diversas potências lhes estendiam a mão, legitimando-os por antecipação, como a China, a Rússia, o Irão ou o Qatar.
Uma das grandes inquietações é a possibilidade de o país voltar a ser um porto de abrigo para os movimentos terroristas, em virtude das ligações que os Talibã mantiveram ao longo dos anos com diversos grupos extremistas dentro e fora do país, com um enorme potencial desestabilizador, entre os quais se conta a Al-Qaeda. Além disso, esta reconquista do poder pode facilmente servir de inspiração para outros movimentos terroristas, a exemplo do que aconteceu com a progressão do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.
Está também em risco a situação das mulheres e raparigas, que conhecem bem a opressão dos Talibã, que nunca esconderam que vão continuar a aplicar a sharia, a lei islâmica. Receiam, por isso, que os casamentos forçados voltem a ser prática corrente, sobretudo para conforto dos combatentes, tal como as lapidações, as chicotadas e outros castigos e restrições absurdas aos direitos e liberdades pessoais. Receiam perder coisas tão simples como o acesso à generalidade das profissões, mostrar os cabelos, sair às ruas sem a companhia de um familiar homem, poderem ir à escola e à universidade e de serem professoras, ter o seu próprio negócio, conduzir um carro ou fazer desporto.
Em termos geopolíticos, a situação é atualmente mais complexa, mas os sinais de aproximação ao Afeganistão já manifestados por parte da China, Rússia, Irão ou Turquia podem ter efeitos perversos nos equilíbrios internacionais. Na governação passada, apenas o Paquistão, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos reconheceram o regime Talibã. Agora, enquanto o mundo ocidental assiste desorientado e estupefacto à evolução dos acontecimentos, a China, a Rússia, a Turquia ou o Irão tentam garantir os seus interesses estratégicos sem estados de alma, entre outras coisas porque os Talibã têm sobre eles um ascendente importante, devido à sua influência sobre diversos movimentos terroristas com grande potencial desestabilizador.
A saída unilateral dos Estados Unidos do Afeganistão até tem justificação do ponto de vista da política interna. Mas existe algo de imoral na forma precipitada como tudo aconteceu, na forma como o país e os afegãos foram abandonados e um receio fundado que o Afeganistão se torne facilmente um foco de instabilidade com consequências imprevisíveis a nível regional e global.
Deputado do PS

