A Itália, a França, os vizinhos e todos nós

Mario Draghi e Emmanuel Macron representam duas gerações distintas de europeus. O primeiro pertence à que se tornou adulta e livre por alturas de maio de 68 e cujos pais haviam sofrido os horrores da Segunda Grande Guerra. Para um italiano desse tempo, os valores da paz, da liberdade, da prosperidade e da cooperação entre as nações constituem as fundações da Europa comum. Macron faz parte dos dirigentes mais jovens, dos que viveram os seus anos formativos já depois da queda do Muro de Berlim e numa época em que a globalização estava em pleno arranque. A sua geração considera o aprofundamento da União indispensável para fazer frente à competição entre as grandes potências e manter um grau relativo de independência estratégica.

Assinam hoje um novo tratado de amizade entre os seus países - de cooperação reforçada, como lhe chamam. Trata-se, dizem-nos, de promover uma melhor coordenação em matéria de política, de segurança e defesa, de migrações e noutras áreas. Para além da dimensão bilateral, a intenção é a de se apoiarem mutuamente na arena europeia. Provêm de gerações diferentes, mas acreditam ambos no futuro do projeto europeu. A pátria e a Europa unem-se numa ambição partilhada.

Considero imprescindível que ambos os países desempenhem um papel central no reforço da unidade europeia. E que a eles se junte a Alemanha, agora sob a liderança do novo chanceler, Olaf Sholz. Teremos assim um núcleo equilibrado, apoiado por forças realistas e sociais-democratas, ao qual poderão acrescentar-se outros líderes. O futuro da política europeia deve assentar numa visão que combine a transformação económica que o clima e a era digital exigem com o humanismo e o respeito pelos valores consignados no Tratado de Lisboa.

E a defesa, perguntará Josep Borrell, o alto representante que recentemente apresentou a primeira versão de um plano europeu de defesa e segurança? Batizado como Bússola Estratégica, e agora em análise nas capitais europeias, poderá esse plano beneficiar do entendimento hoje assinado em Roma?

Em princípio, sim. Mas estas coisas da defesa comum são complicadas. Vejamos um exemplo atual. No mesmo dia em que Draghi e Macron se abraçam, ministros do governo italiano continuam a opor-se à venda a um consórcio franco-alemão de uma empresa italiana que produz canhões para navios, peças para tanques e torpedos. O montante que o consórcio está disposto a pagar é elevado. Mas o nacionalismo italiano em matéria de indústrias de defesa e de empregos fala com voz grossa. E o negócio fica à espera.

Este é apenas um exemplo das dificuldades que a Bússola Estratégica irá encontrar. E que precisa de ter em conta, de modo explícito.

Nacionalismos à parte, a verdade é que os povos europeus não têm uma visão integrada das ameaças externas que podem pôr em causa a paz, o bem-estar e a unidade da Europa. E o plano de Borrell não ajuda. Primeiro, porque parte do princípio de que o perigo vem apenas do exterior, quando na realidade algumas das grandes ameaças à estabilidade e à segurança da UE são de ordem interna. Derivam das fraturas sociais existentes nalguns dos países da União e do seu agravamento acelerado. Resultam, igualmente, das tendências autocráticas que se verificam em certos Estados membros, dos populismos ultranacionalistas e do mau funcionamento das instituições que devem sustentar a democracia ao nível nacional. Segundo, porque Borrell parte do conceito ambíguo de que a Europa está em "contração estratégica", algo que resultaria da progressiva diminuição do nosso peso económico e demográfico em comparação com o resto do mundo. Se esse argumento fosse válido, a Rússia, que tem um terço da população e um décimo do PIB europeu, não teria qualquer influência estratégica. A projeção internacional não assenta necessariamente no gigantismo económico ou demográfico. Veja-se o exemplo da Noruega.

Voltaremos à Bússola Estratégica numa outra ocasião. Para já e por causa do que hoje se passa em Roma, o importante é frisar também entre nós que a cooperação reforçada entre vizinhos é uma das vias mais diretas para a consolidação da UE.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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