Na quinta-feira passada, cessou a vigência do New START, último acordo bilateral - entre a Rússia, com 5459 ogivas nucleares, e os EUA, com 5177 - no qual as duas superpotências nucleares [controlando c. 90% das armas nucleares] se comprometiam a “reduzir e limitar as suas armas ofensivas estratégicas” para 1550 ogivas cada. EUA e Rússia nem chegaram a abrir negociações para a sua continuidade e a China já fez saber que não concorda com a proposta de Trump de triangular o acordo. Desta forma, a Rússia e os EUA deixaram de ter limites legais quanto aos seus arsenais nucleares.As reiteradas ameaças da liderança russa de utilização de armas nucleares na guerra na Ucrânia e a postura da liderança americana - com uma “Nova Estratégia de Segurança” centrada num imperialismo de foco regional - não permite a nenhum dos seus aliados sentir-se seguro. A incerteza daí decorrente está a conduzir a uma corrida armamentista, quer em armas convencionais, quer em armas nucleares.Por outro lado, a reiterada violação do Direito Internacional pelos EUA e pela Rússia legitima que outras potências denunciem ou incumpram os tratados internacionais que visam impedir a proliferação de armas nucleares. Em zonas com conflitos entre potências regionais, a proliferação nuclear já começara. É o caso da Ásia do Sul, com a Índia (com 172 ogivas nucleares) e o Paquistão (170) ou do Médio Oriente, com Israel (90) e o Irão.No Extremo Oriente, a falta de confiança na superpotência americana está a conduzir ao rearmamento do Japão. A Coreia do Sul também deverá querer assegurar a sua autonomia estratégia face ao recuo dos EUA. Em ambos os casos, o rearmamento não deverá ficar pelas armas convencionais, atentas as ameaças à sua segurança externa pela Rússia, pela China e pela Coreia do Norte (50).Também a Europa não pode realisticamente contar com uma intervenção dos EUA em caso de agressão russa. Após décadas de ilusões sobre os “interesses comuns” com os EUA, a Europa decidiu finalmente assumir a sua Defesa de forma autónoma. A nova política europeia de rearmamento convencional levará tempo a implementar e será atrasada pelos cavalos de Tróia russos em vários países europeus.A história mostra que a única forma de garantir a segurança europeia e prevenir uma agressão por parte de uma Rússia imperialista cada vez mais militarizada é a dissuasão nuclear. A Polónia já declarou alto e bom som que vai ter armas nucleares. Alguns países nórdicos e bálticos já declararam aceitar a instalação de armas nucleares. A Alemanha não deverá estar longe de seguir a Polónia.Não sendo possível confiar em governos americanos erráticos, transacionais e liderados por gente corrupta, e dispondo já potências médias de armas nucleares, por que hão de mais países europeus prescindir de as ter quando são essenciais para a Defesa europeia? Consultor financeiro e business developerwww.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira