"Chegará o dia em que Donald Trump vai desaparecer. Mas a desonra, essa, permanecerá.".(Liz Cheney sobre os republicanos que se mantiveram na "Big Lie" de recusar a legitimidade da eleição de Biden e de justificar o que aconteceu a de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio).Arejeição que o estilo trumpista gera numa sólida maioria eleitoral na América está mais do que identificada pelos estudos e comprovada repetidamente nas urnas..Para estas intercalares 2022, quase todos os fundamentais pareciam favorecer os republicanos: popularidade baixa de Joe Biden, três quartos dos americanos a dizer que o país estava a ir na direção errada, inflação recorde em quatro décadas, preços altos da energia, desconforto em relação à criminalidade nas grandes cidades, desprestígio americano pós-humilhação no Afeganistão, incerteza sobre o quadro internacional decorrente da invasão russa da Ucrânia..O bom desempenho dos democratas - melhor resultado do partido do presidente em funções numas intercalares em 20 anos e segundo melhor em meio século, só suplantado pelo triunfo em 2002 dos republicanos de George W. Bush, num ambiente de consenso nacional pós 9/11 - sinaliza duas tendências: 1) a maioria do eleitorado é menos polarizada e extremada do que o tom do discurso politico parece fazer crer; 2) Trump tem milhões de fiéis e seguidores muito barulhentos, que conseguem gerar a falsa perceção de que são mais numerosos do que, na verdade, são. São muitos, mas nunca foram maioritários..Estas eleições mostraram-nos outras duas realidades que não pareciam tão evidentes..A primeira indica-nos que esta presidência tem mais créditos do que costumamos atribuir-lhe. Em apenas dois anos, Biden foi o candidato presidencial mais votado da História da América, teve meio ano inicial de grande concretização legislativa (sucesso na vacinação, plano de estímulo pós-covid, plano de infraestruturas com apoio bipartidário, medidas de combate às alterações climáticas, milhares de milhões investidos em energias verdes, perdão dos empréstimos aos estudantes), mas o falhanço no Afeganistão fê-lo perder o momento..Voltou a tomar as rédeas ao estar do lado certo na liderança da ajuda à Ucrânia e travagem da Rússia, respondeu à revogação do Roe vs Wade com medidas de proteção da saúde das mulheres, reduziu o défice, colocou os EUA em mínimos históricos de desemprego. Rotular isto de "presidência falhada" até pode ser repetido ad nauseam: mas torna-se difícil de se tornar numa afirmação plausível..A segunda realidade destapada pelas midterm é que o mapa eleitoral mudou decisivamente. Há dois anos, a maioria republicana no Senado parecia inviolável. Essa ideia rompeu-se com as vitórias dos democratas em 2020 na Geórgia (Raphael Warnock) e no Arizona (Mark Kelly), ocorridas no embalo do triunfo presidencial de Biden nos mesmos estados. Um dos elementos mais relevantes destas intercalares são a confirmação da viragem destes dois estados do sul para os democratas - no Arizona, Kelly foi reeleito; na Geórgia, Warnock ficou pertíssimo dos 50% e uma vantagem de 40 mil votos sobre o adversário republicano, bem lançado para a reeleição no runoff..Ao mesmo tempo, as vitórias robustas dos republicanos na Florida, sobretudo os quase 20 pontos de vantagem de Ron DeSantis sobre Charlie Crist para governador, e de JD Vance sobre o credenciado democrata Tim Ryan para o Senado do Ohio, coloca estes dois estados, que eram talvez os principais toss-up até 2020, em sólidos republicanos..Que forças inesperadas fizeram a eleição virar? Um turnout surpreendentemente alto da Geração Z, que foi às urnas recusar a proibição do aborto e dizer que está farta da trumpização da política e da sociedade americanas; os democratas seguraram voto urbano e com qualificações e em alguns estados terão recuperado uma parte da working class, sem estudos superiores (como se viu na vitória de Fatterman contra o Dr. Oz na Pensilvânia), que tinha preferido Trump a Hillary em 2016 e se dividiu no apoio a Biden contra a reeleição de Trump em 2020; mulheres brancas suburbanas, que em 2016 votaram Trump, mas em 2020 preferiram Biden, mantiveram preferência pelos democratas nestas intercalares, sobretudo as under 40 que não são casadas..Biden ganha novo fôlego para o resto do mandato e até para a reeleição. O resultado muito acima do esperado avaliza o caminho do Presidente: ajuda a parar com as dúvidas internas sobre se devia mesmo recandidatar-se. A nomeação para 2024 passa a estar do lado de Biden: se o Presidente for claro a dizer que está em condições de ser candidato, apesar da idade (fará 80 anos este 20 de novembro), não se vê quem o possa desafiar..Do lado republicano, está lançada a contradição interna: cada vez mais vozes apelam a que Trump recue na candidatura para 2024 e a enorme vitória de Ron de Santis lança-o como o candidato mais viável do lado republicano. A repetição de derrotas nacionais por demasiada rejeição de Trump faz com que pareça pouco inteligente insistir nessa carta..Perante o risco imprevisível e irresponsável do negacionismo eleitoral, o eleitorado americano optou por uma inesperada vitória da normalidade. Do alto do seu meio século na alta política americana, Joe Biden terá percebido isso como ninguém: "O meu pai costumava dizer: "Joey, eu não espero que o governo resolva os meus problemas. Mas espero que entenda os meus problemas""..Como bem recordou o presidente no Twitter, em plena noite eleitoral, "a Democracia não acontece por acidente"..Autor de cinco livros sobre presidências dos EUA