A devastação provocada pelo mau tempo em Leiria voltou a expor uma fragilidade que já não pode ser tratada como acidente meteorológico ou fatalidade sazonal. A lentidão da resposta do Governo - primeiro na avaliação dos estragos, depois na mobilização de meios e, finalmente, na comunicação com as populações - tornou-se um sintoma de algo mais profundo: a incapacidade estrutural de antecipar, planear e agir num país que insiste em confundir planos com PowerPoints e estratégia com conferências de imprensa.Os habitantes de Leiria não precisavam de discursos tranquilizadores, mas de eletricidade, estradas transitáveis, linhas de comunicação operacionais e equipas no terreno. Precisavam de saber que o Estado não chega sempre tarde, como um vizinho bem-intencionado que aparece quando já só restam os escombros. Porém, foi isso que aconteceu. Outra vez. É desconcertante que, depois de décadas a discutir resiliência, proteção civil e adaptação climática, continuemos a tropeçar nos mesmos erros. O país tem planos - muitos, aliás -, mas falta-lhe aquilo que distingue um plano de um documento esquecido numa gaveta: credibilidade. E a credibilidade constrói-se com testes reais, simulações sérias, investimento continuado e uma cultura de responsabilidade que não desaparece quando o sol volta a brilhar.. A verdade é que Portugal continua vulnerável a um conjunto de riscos que já não são excecionais. Tempestades intensas, cheias rápidas, falhas energéticas, ruturas nas comunicações. Tudo isto faz parte do novo normal. E, ainda assim, reagimos como se cada evento fosse uma surpresa desagradável, um imprevisto que ninguém poderia antecipar. É uma narrativa conveniente, mas profundamente enganadora.O que falhou em Leiria não foi apenas a prontidão operacional. Falhou a visão. Falhou a noção de que, num país moderno, a energia e as comunicações não podem colapsar ao primeiro vendaval. Falhou a perceção de que a assistência às populações não é um favor do Estado, mas uma obrigação básica. Falhou, sobretudo, a coragem política de assumir que a prevenção custa dinheiro - e que custa muito mais não a fazer.É desconfortável admitir, mas Portugal continua a funcionar como se a exceção fosse regra e a regra fosse exceção. Planeamos para o ideal, não para o provável. E quando o provável acontece, ficamos à espera que alguém explique por que é que o plano não funcionou. A resposta é sempre a mesma: porque nunca passou de teoria.O país precisa de outra atitude. Precisamos de infraestruturas reforçadas, redes energéticas capazes de resistir a eventos extremos, redundância nas comunicações, equipas treinadas e equipadas, e uma cadeia de comando que não dependa da meteorologia para decidir se avança ou não. Precisamos de transparência, de avaliação independente e de um compromisso político que sobreviva a ciclos eleitorais.Leiria não pode ser apenas mais um episódio na longa lista de desastres que prometemos “não repetir”. As populações afetadas merecem mais do que promessas. Merecem um Estado que funcione quando é preciso e não quando dá jeito. Se não formos capazes de aprender com isto, então o próximo temporal não será apenas uma tragédia anunciada. Será a prova definitiva de que continuamos a confundir governar com reagir, e planeamento com retórica. E isso, ao contrário do mau tempo, não é inevitável. É uma escolha. Diretor do Diário de Notícias