A morte de Joaquim Aguiar (1947-2025) constitui uma perda irreparável para a Ciência Política em Portugal. Discípulo de Adérito Sedas Nunes, deixa-nos uma reflexão inovadora e cientificamente muito rigorosa e rica, seguindo as passadas do seu mestre, numa análise rigorosa da sociedade política que permite a compreensão da influência complexa das instituições e dos diversos atores sociais, económicos e culturais, Estado, partidos políticos, organizações da sociedade civil, empresas e sindicatos, agentes culturais… Longe de qualquer simplificação, o sociólogo de fina têmpera procurou sempre articular as diferentes componentes que formam o sistema, como realidade dinâmica, ora em movimento criador, ora em tendência estabilizadora. A sua obra e a atividade de investigador e de conselheiro político (com Ramalho Eanes e Mário Soares) permitem-nos entender como contribuiu para a consolidação do nosso sistema político. Intérprete permanente da vida constitucional e política portuguesa, pôde contribuir para a caracterização dos mais importantes elementos estruturais definidores da realidade.O ponto de partida da análise que fez foi o da sociedade dual, bem caracterizada por Sedas Nunes, verdadeiro pioneiro dos estudos sociológicos contemporâneos, um dos mais lúcidos espíritos da academia portuguesa. “Entender este dualismo (sociedade moderna, sociedade tradicional) na sua estrutura e na sua dinâmica evolutiva é captar um dos quadros de referência básicos da problemática social”. Num texto teórico fundador, o jovem investigador deu à estampa Para uma Análise Sistémica da Produção de Teorias nas Ciências Sociais - o Caso da Economia Política (1973), no antigo Gabinete de Investigações Sociais, e aí procedeu àquilo que designou como “eixos de viragem” na ciência económica, onde encontra Keynes e Wicksell. Afinal, importaria partir das condições concretas da sociedade, sempre diferentes, considerando os circunstancialismos económicos e sociais. A vida das instituições, os mecanismos de representação e legitimidade correspondiam a uma tensão, que levava Joaquim Aguiar a dizer profeticamente, em A Ilusão do Poder - Análise do sistema Partidário Português - 1976-1982 (D. Quixote, 1983): “O problema político não é só uma questão partidária. Mas se ela não for enfrentada, controlada e resolvida, a solução do problema político seguirá outras vias, que não serão os caminhos da democracia. Então as sucessivas conquistas do poder e as ilusões que esses processos alimentaram terão transformado em vestígios históricos as instituições, os agentes políticos e os partidos do presente.”Hoje, o tema torna-se mais atual que nunca, merecendo séria ponderação. Olhe-se, por isso, o lugar constitucional do Presidente da República no contexto das instituições. Mais do que um milagreiro ou do que um prestidigitador, a reflexão séria de um cientista experimentado como Joaquim Aguiar apontava para as virtualidades históricas de um poder moderador ativo, de uma magistratura de influência, respeitadores da separação e interdependência de poderes, não se confundindo com o poder executivo, e representando uma cidadania responsável e permanentemente atenta. Fora da ilusão do poder, é indispensável conhecimento e experiência, em lugar de aventuras incertas… Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura