A humanidade já não sabe amar?

Numa praia de Ceuta 16 militares esperam a chegada de imigrantes africanos que, a nado, desaguam ali a tentarem entrar ilegalmente no enclave espanhol. Os militares estão de camuflado, capacete, armas, botas.

Há também sete ou oito polícias, de operações especiais, com as suas fardas azuis, coletes antibala, capacetes integrais, armas e botas.

Há quatro ilegais: dois no chão, deitados, quase desfalecidos. Outro está a ser detido pelos polícias. O quarto está dentro de água, de pé, talvez a hesitar se deve ou não entrar na praia.

Quatro fotógrafos recolhem imagens.

Pelo meio de todos eles circulam três voluntários, que usam um colete com o sinal da Cruz Vermelha, e dois homens de bata branca (médicos? Enfermeiros?) a tentar dar alguma assistência aos mais aflitos.

Esta é a cena inicial.

Luna Reyes, uma miúda de 20 anos, ajuda um senegalês, exausto. Ela e um militar começam por ampará-lo enquanto o africano vomita. Depois, os dois, com outro militar que entretanto se juntou, ajudam o homem a caminhar e, finalmente, a sentar-se numa rocha.

Luna fica sozinha com ele, ajoelha-se à sua frente e chega-lhe uma garrafa de água. Apesar da máscara negra que lhe cobre boca e nariz, percebe-se que está a dizer umas palavras, talvez a tentar dar ao combalido algum ânimo e conforto. O rapaz bebe água enquanto a rapariga lhe segura a cabeça. De repente, em pranto, ele deita a cabeça no ombro de Luna e abraça-se a ela, que corresponde e lhe acaricia a cabeça durante alguns segundos, talvez meio minuto.

A cena é interrompida pelos gritos e a agitação de um outro imigrante, que está a ser detido e que é levado em peso, por dois polícias e dois militares, até uma zona mais livre do areal, para ser dominado e se acalmar.

O vídeo que registou o que contei já foi provavelmente visto por muitos dos leitores, mas resolvi descrevê-lo com pormenor, com os detalhes que às vezes passam despercebidos numa visão muitas vezes apressada que possa ter ocorrido, sei lá, num curto minuto frente a um pequeno ecrã de telemóvel ligado à rede social Twitter, onde alguém o partilhou.

Os detalhes são fundamentais para perceber todo o quadro: a fragilidade dos miseráveis, o esquizofrénico duplo papel humanitário e repressor das autoridades, a ação dos serviços de saúde e de solidariedade, a cobertura mediática, a quantidade de gente que naquele minuto específico estava mobilizada para lidar com, apenas, quatro imigrantes.

A leitura desses detalhes mostrava-me, apesar de tudo, o lado generoso humano a sobrepor-se ao lado egoísta.

Mas houve muita gente, demasiada gente, que não viu nada disso.

A cena motivou uma primeira onda de ódio contra a pequena rapariga branca, cabelo em rabo de cavalo e óculos redondos na cara, que se deixou abraçar pelo homem negro coberto de areia e sal.

A quantidade e o nível de insultos racistas, sexistas, moralistas, xenófobos, ameaçadores, difamatórios, ordinários e estúpidos chegou ao ponto suficiente de meter medo a Luna, que decidiu fechar ao público as suas contas nas redes sociais.

Luna, segundo os jornais, conta a história desta maneira: "Viram que o meu namorado era negro e não param de me insultar e dizer coisas horríveis e racistas de mim".

"Dar um abraço a quem pede ajuda é a coisa mais normal do mundo. Ele estava a chorar, estendi-lhe a mão e ele abraçou-me. Aquele abraço foi a tábua de salvação dele", acrescentou, como a tentar justificar-se...

Chegamos, portanto, ao momento em que uma voluntária da Cruz Vermelha sente a necessidade de explicar porque se deixou abraçar por um doente - algo que certamente nenhum voluntário precisava fazer há 158 anos, em 1863, quando a Cruz Vermelha foi fundada por Henri Dunant no pressuposto, já aceite nesta mesma Europa, de que mesmo o nosso inimigo mais feroz tem direito a conforto e tratamento quando está fragilizado.

Esta reação, que replica reações de muitas pessoas em muitos outros países que enfrentaram noutras alturas picos de imigração ilegal, coloca portanto estes africanos, que se atiram ao mar para tentar chegar a outra terra, num escalão de ódio superior ao suscitado por um inimigo de guerra, que se atira a um campo de batalha para tentar matar-nos.

Não vou discutir agora o problema da imigração ilegal, nem do racismo, nem do populismo. O caso é muito mais grave. Vou só perguntar: a humanidade já não sabe amar?

Jornalista

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