A herança de António Chainho

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António Chainho é um símbolo. No Congresso da Europa Nostra em 2012, no Mosteiro dos Jerónimos, na presença do Presidente da República Cavaco Silva e dos Príncipes das Astúrias, com Plácido Domingo e Katia Guerreiro, quando representou, através da música, a dimensão universal da Cultura Portuguesa, deixou os presentes, vindos de toda a Europa, maravilhados pelas virtualidades demonstradas pela guitarra portuguesa, com um artista dotadíssimo.

Quando falamos de património cultural e pensamos nos monumentos e documentos e na sua expressão material não podemos deixar de compreender que não falamos de algo do passado, mas de uma realidade viva do presente, como manifestação dinâmica e inesquecível. Eis por que as políticas públicas de cultura não podem deixar de se centrar no património cultural e na sua ligação íntima à criação. No momento em que a Europa Nostra, o Centro Nacional de Cultura e a Fundação Gulbenkian, no âmbito de Hub Europeu do Património, lançam o projeto In Varietate Concordia, com o entusiasmo de Maria João Pires e Jordi Savall, estamos certos de que, se António Chainho estivesse entre nós, seria um dos protagonistas.

Não há criatividade humana sem a ligação entre a arte, a aprendizagem e a ciência. Um artista, um escritor, um cientista e um educador têm um processo semelhante de exercer o seu ofício. Edgar Morin tem-no explicado bastamente, partindo da complexidade e de um método que permite encarar o progresso humano como um caminho que considera o género humano como uma comunidade solidária de destino.

Naquele dia, quando os acordes da guitarra portuguesa ecoaram nos claustros dos Jerónimos, foi a essência da criação humana que se manifestou em plenitude. A herança recebida das gerações antigas vibrou, projetando-se na eternidade. Lembrar hoje, de novo, o percurso e o exemplo de António Chainho e a sua atitude de permanente inconformismo e exigência significa entender como a mestria no domínio de um instrumento transcende a usual consideração do mesmo.

Só os grandes artistas podem superar, pelo talento e a genialidade, o que a mediania não alcança. Desde Alfredo Marceneiro, passando por Carlos do Carmo, Francisco José, Frei Hermano da Câmara, Hermínia Silva e Maria Teresa de Noronha - António Chainho, ao lado de José Maria Nóbrega, interpretou o fado como diálogo entre a voz e o instrumento como reinvenção permanente. Com Rão Kyao, descobriu uma nova expressão. E a expansão internacional levou a guitarra portuguesa pelo mundo com a sua sonoridade única, como aconteceu com a London Philarmonic Orchestra ou no encontro com José Carreras. São múltiplos os exemplos, avultando o encontro dos grandes clássicos da música brasileira com Maria Bethania ou Adriana Calcanhoto.

A biografia do artista e a sua discografia são impossíveis de resumir. A preocupação que sempre teve com a formação e a transmissão de conhecimentos inovadores merece especial referência. Não é possível cuidar do património cultural se não houver a dimensão educativa. Nesse ponto em António Chainho reúnem-se características singulares: a defesa e salvaguarda do património herdado, a capacidade inovadora abrindo novos horizontes e a consciência da importância da transmissão de conhecimentos e de métodos de ação. Um lugar de exceção no panorama cultural e artístico.

Presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura

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