A grande mistificação

A 33.ª edição do Campeonato Africano de Futebol (CAN) começou no domingo em Yaoundé, capital dos Camarões, com uma vitória da seleção da casa por 2 a 1 contra o Burkina Faso. Participam no torneio 24 seleções, entre as quais duas de países de língua portuguesa: Cabo Verde e Guiné-Bissau. O CAN é disputado de dois em dois anos.

O ativista egípcio de origem palestiniana Ramy Shaat, detido em sua casa no Cairo no dia 5 de julho de 2019, foi libertado pelas autoridades egípcias e chegou a Paris no passado sábado, 8, com uma condição: teve de renunciar à sua nacionalidade egípcia. Shaat foi uma das figuras de destaque na fracassada "primavera árabe" no Egito e é igualmente conhecido pela sua militância a favor de uma Palestina "independente e estável".

Os presidentes da Comunidade de Desenvolvimento da África Ocidental (CEDEAO) fecharam as fronteiras dos seus países com o Mali e suspenderam todas as transações comerciais com este último, até que as autoridades malianas aprovem e divulguem um calendário eleitoral confiável. O Mali é governado desde maio de 2021 por uma junta militar chefiada pelo coronel Assimi Goita, que pretende realizar eleições apenas dentro de cinco anos (depois de ter prometido fazê-las no presente ano).

Na Etiópia, o primeiro-ministro, Abiy Ahmed, anunciou no dia 7 deste mês, data do Natal etíope, uma amnistia para 37 figuras da oposição, surpreendendo a maioria dos políticos locais. O país, recorde-se, vive há 14 meses uma guerra civil. A intenção de Ahmed, depois que as autoridades conseguiram, em novembro do ano findo, rechaçar uma ofensiva das forças rebeldes, é reaver a iniciativa política, jogando a cartada do "equilíbrio". Para isso, propôs um "diálogo nacional", no qual deverão participar algumas das figuras amnistiadas.

Uma experiência de vacinação contra a malária em três países africanos poderá ser estendida a partir deste ano para o resto do continente. A mosquirix tem sido utilizada em áreas endémicas do Quénia, do Gana e do Malawi desde 2019. Até agora, os resultados são esperançosos. Nos três países, reduziram-se os casos de malária entre crianças menores de 5 anos, assim como as complicações decorrentes da doença, como a anemia.

Em Marrocos, parte da imprensa denunciou as relações privilegiadas entre o monarca e três irmãos alemães de origem marroquina, que vão desde facilidades administrativas e comerciais até à autorização para furarem o bloqueio das fronteiras por causa da covid-19. O facto tem gerado um crescente mal-estar no país.

Na Tunísia, as autoridades têm recorrido cada vez mais à repressão, como não se via desde o fim da ditadura, em 2011. O vice-presidente do partido islamita Ennahda e antigo ministro da Justiça (2011-2013), Nordin Biri, foi detido no último dia do ano passado por agentes à paisana, sem qualquer ordem judicial. "Isto recorda a época das desaparições forçadas, das detenções secretas, dos julgamentos injustos perante tribunais militares e do uso indevido de medidas de exceção", acusou Said Bernabia, da ONG Comissão Internacional de Juristas.

Não, não li estas notícias sobre a atualidade africana em qualquer jornal português, mas, sim, nas edições online de ontem, segunda-feira, do Le Monde e do El País. A comparação com a cobertura africana por parte da imprensa portuguesa é acachapante. O discurso institucional (que é muito mais do que "oficial") português sobre as relações com África é uma grande mistificação.

Os africanos estão em Portugal desde o século VII (primeiro os mouros e berberes e depois, a partir do século XV, os originários da região subsariana) e o referido país foi a nação europeia que durante mais tempo manteve as suas colónias em África. Mas a sociedade tem dificuldades em assumir o seu lado negro (com ou sem trocadilhos, como quiserem os leitores).

Escritor e jornalista angolano, diretor da revista África 21

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