A geringonça está a renascer?

A maioria absoluta com que António Costa sonhou e (desconfio) Marcelo Rebelo de Sousa lhe vendeu como sonho realizável não existe nem nunca existiu. A geringonça, como fórmula de poder, nunca deixou de ser a solução mais viável para António Costa. E, por isso, na próxima semana, o país pode acordar com a sensação de que nada mudou, mesmo que mude o vencedor das eleições. A crise política que resultou do chumbo do orçamento, com destino traçado a partir do momento que o Presidente da República sentenciou que seria necessário fazer "reset" no xadrez político, não servirá para acrescentar estabilidade ao Parlamento. Do que nos dizem todas as sondagens, em nenhum dos cenários possíveis, a situação ficará melhor do que estava e esse é só o primeiro dos problemas de Marcelo.

Com a maioria a manter-se à esquerda e a diabolização do PSD que está a ser feita por António Costa, na tentativa de ganhar o centro e o voto útil à esquerda, o PS abandonou o pedido de uma maioria absoluta. Catarina Martins já começou a traçar as linhas vermelhas para uma futura renegociação do orçamento e programa de governo. O PCP ainda gasta algumas balas para derrubar o voto útil, mas acabará por optar pela reaproximação. Com vitória socialista, Costa já percebeu que não tem outro caminho. A ecogeringonça, uma espécie de sonho reciclado, para uma maioria formada com PAN e Livre, também parece mais difícil e governar à Guterres dura um ano.

Se a vitória acabar por cair para o lado do PSD, mas a maioria se mantiver à esquerda, isso implicará uma saída de António Costa e a mais que previsível vitória interna de Pedro Nuno Santos, o único socialista com capacidade de fazer valer o potencial de uma maioria parlamentar de esquerda. Terá de viabilizar o governo do PSD, para aprovar os orçamentos de 2022 e 2023, e exigir novas eleições no próximo ano. É razoável que num cenário que repete 2015, os socialistas com nova liderança e a esquerda maioritária queiram governar, mas seria um suicídio político se um novo líder não se sujeitasse ao voto dos portugueses. Pedro Nuno Santos já fez saber que é isso que fará.

Também é mau cenário para o Presidente da República, ainda assim, uma vitória do PSD refém de uma maioria de direita com o partido de Ventura como terceira força. Se o Chega for o partido charneira, a instabilidade será ainda maior, Rio não pode fazer qualquer acordo e tem de esperar pelo momento em que o Presidente possa convocar novamente eleições. É igualmente por isso que se torna importa que Rui Rio esclareça sem margem para qualquer dúvida que não aceitará conversas com o Chega, só dessa forma será possível conquistar uma vitória que pode crescer nas eleições seguintes.

O voto útil não se joga apenas à esquerda e à direita, o campo político de cada um dos partidos que pode liderar um projecto de governo cresce ao centro para evitar que a alternativa radicalize. Esta campanha a única coisa que parece ter matado foi mesmo o Bloco Central, a estabilidade terá de ser conseguida com o PS a governar à esquerda ou o PSD a governar à direita. Pode ser agora ou só daqui a um ano ou dois.


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