Um pai injustamente privado de ver os seus três filhos há quase uma década partilhava, recentemente, a força que tem encontrado na sua fé. A par da sua profissão, ligada à medicina, e perante a profunda sensação de injustiça num sistema judicial que, tantas vezes, continua a proteger mais as mães do que os pais, é na espiritualidade que encontra suporte e alento - um espaço interno em que se ancora para manter viva a chama da esperança.A relação entre crenças religiosas e bem-estar psicológico tem sido amplamente estudada e continua a merecer reflexão aprofundada. Na prática clínica, observo frequentemente como a espiritualidade - seja vivida através de uma religião formal ou de um sentido mais amplo de transcendência - funciona como um recurso interno poderoso, sobretudo em momentos de dor, perda e sofrimento. Não se trata de idealizar a religião, mas de reconhecer o papel que desempenha na forma como as pessoas atribuem sentido às experiências mais difíceis da vida.A morte, por exemplo, é um dos maiores desafios emocionais que enfrentamos. A crença numa continuidade (seja ela espiritual, simbólica ou metafísica) pode oferecer conforto, estrutura e esperança. Para muitos, a fé é uma âncora num mar de incerteza. E esta não é apenas uma perceção clínica: a investigação científica tem vindo a reforçar esta ligação.Um estudo sistemático de Kruk e Aboul-Enein (2024) conclui que práticas religiosas e espirituais estão associadas a melhores indicadores de saúde e bem-estar incluindo maior resiliência emocional e melhor capacidade de lidar com adversidades. A espiritualidade surge, assim, como um moderador relevante do stress. Também Milevsky (2024) destaca que a vivência religiosa contribui para a saúde mental, promovendo emoções positivas, ligação social e um sentido de propósito - fatores essenciais quando atravessamos sofrimento profundo.Um outro estudo (Price e Johnson, 2024) analisou a compatibilidade entre crenças religiosas e científicas e verificou que, quando não são percebidas como contraditórias, os níveis de bem-estar aumentam significativamente. Isto sugere que a religião não atua isoladamente, mas integrada num sistema mais amplo de crenças que ajudam a pessoa a organizar o mundo e a si própria.A nível global, um estudo da Gallup (2012-2022), divulgado em 2023, mostrou que pessoas religiosas tendem a apresentar melhores indicadores de bem-estar emocional, incluindo maior experiência de emoções positivas e maior sensação de apoio social. Estes dados reforçam a ideia de que a fé pode funcionar como um fator protetor, especialmente em contextos de sofrimento.Naturalmente, a religião não é uma solução universal. Muitas pessoas encontram sentido fora dela e, para algumas, pode até ser fonte de conflito interno. Mas, para muitos, a espiritualidade constitui um espaço seguro, no qual podem colocar a dor, a dúvida e o medo, e encontrar respostas que a ciência, por si só, não consegue oferecer.O essencial é reconhecer e valorizar os recursos internos de cada pessoa. Para alguns, esses recursos incluem a fé. Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal