A Fábula dos Dois Assassinos: Crime e Arrependimento

Há 15 anos houve um conjunto de assassinatos em Portugal tendo vários desses criminosos sido apanhados, julgados, condenados e cumprem pena. Sendo necessário avaliar se pode ou não ser-lhes concedida liberdade condicional, reúne-se um painel de avaliação.

O assassino A mostra-se muito arrependido, pediu perdão às famílias das vítimas e tem tido um comportamento exemplar na cadeia, trabalhando e completando a sua educação secundária. Anonimamente envia parte do seu dinheiro para associações de apoio às vítimas de crimes violentos.

O assassino B não mostra qualquer arrependimento, refere que na época em que cometeu os crimes o assassinato aconteceu várias vezes pelo que era normal e que em vários países europeus até houve assassinos piores e que já foram libertados. Orgulha-se do seu passado, tem na cela em exposição uma replica em madeira da pistola que usou, embora afirme, com um sorriso postiço, que hoje os tempos são outros e que o assassinato deixou de ser aceitável.

Se o meu caro leitor pertencesse ao painel de avaliação a qual dos indivíduos daria liberdade condicional? Pois claro, a resposta sensata e certa é ao assassino A, o que está arrependido. O arrependimento, o pedido de perdão e a tentativa de reparação são boas garantias de que não enveredará pelo mesmo caminho. Pelo contrário a falta de arrependimento e o orgulho nos atos perpetrados no passado são bons indícios de que o assassino B será reincidente e que, se libertado, cometerá novos crimes da mesma natureza.

O que assusta na extrema-direita e em parte crescente da direita portuguesa é a sua incapacidade de se arrepender dos crimes que o nosso país cometeu no passado, a inumana escravização de pessoas, o colonialismo brutal e sangrento, o seu orgulho nesses momentos e a sua vontade aberta de os repetir.

Olhar o passado com orgulho é seguramente importante. Existem motivos de orgulho no passado histórico português. A defesa da nossa independência face a Castela no século XIV, a revolta e reconquista da independência no século XVII, a resistência às invasões francesas. E múltiplos heróis e figuras que nos orgulham e honram no campo das letras, das ciências e do progresso humano. A par desses existem outros momentos e feitos que nos devem envergonhar e entristecer.

Os alemães preferem exaltar Beethoven e arrepender-se de Hitler, orgulhar-se dos resistentes e criticar os dignitários nazis, ostentar o exemplo de muitos judeus alemães e nada de muitos autoproclamados arianos.

Cada povo escolhe do seu passado os melhores momentos para os exaltar e para inspirar as novas gerações. O Estado Novo assim o fez escolhendo para justificar o colonialismo toda uma mitologia histórica de orgulho no esclavagismo e na opressão de outros povos. Infelizmente hoje continuamos reféns dessa visão do mundo.

Quem hoje se pretende rever no esclavagismo, no colonialismo e no racismo? Que futuro podemos construir com base nesses exemplos? Que gerações podemos formar com base na admiração de crimes? Que jovens podemos criar dizendo-lhes que somos os lídimos e orgulhosos herdeiros de crimes históricos, repudiados por toda a Humanidade? E como podemos dizer-lhes que foram crimes que não nos representam se a cada esquina temos uma estátua, em cada salão estatal um painel,

em cada sala de aula um livro que nos ensina a admirar homens e atos que hoje estariam condenados por crimes pelo Tribunal Penal Internacional?

Para a reconciliação humana o arrependimento, o pedido de perdão e a reparação são as únicas formas de ultrapassar crimes históricos que pesam ainda sobre as vitimas e os seus descendentes.

Com todas as suas limitações, avanços e recuos, altos e baixos, existem pelo mundo muitos exemplos do caminho a seguir. Não é preciso sequer ser-se inovador e pioneiro, é apenas preciso ser-se decente.

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