A extrema-direita israelita

A direita israelita está de regresso para liderar o país num momento muito sensível. Após o colapso do governo anterior, o que era esperado por causa das diferenças ideológicas entre os membros da coligação, as quintas eleições em menos de quatro anos obviamente trazem de volta Benjamin Netanyahu como o próximo primeiro-ministro.

É óbvio que o governo israelita será mais à direita do que qualquer outro na história moderna do país, por causa do sucesso da extrema-direita e dos políticos ultraortodoxos nas eleições. Analistas israelitas dizem que a razão para tal está na decisão dos jovens que, entre esses dois grupos, queriam ver alguém novo no poder. Eles acreditam que uma política intransigente em relação aos palestinos trará mais estabilidade e segurança ao país. Além disso, os colonos da Cisjordânia, que não faz parte do território israelita, estão a desempenhar um papel mais importante na política do país, com a sua abordagem de "mão firme" aos ataques extremistas palestinos.

A campanha pré-eleitoral estava cheia de promessas que desestabilizariam seriamente a região se implementadas e resta ver como os novos ministros vão agir quando assumirem os seus novos cargos. A ideia de anexar toda a Cisjordânia, com os diferentes direitos civis para judeus e árabes que lá vivem seria, obviamente, uma atitude após a qual Israel poderia perder a maioria dos seus aliados no Ocidente. Além disso, poderia perder-se também o que se conseguiu nas relações com alguns dos países árabes. Devido a esse facto, o novo governo voltar-se-á provavelmente para as questões internas, como as prometidas mudanças no sistema judicial, limitando o poder do Supremo Tribunal e ganhando mais influência no processo de nomeação de juízes.

Benjamin Netanyahu, como o político mais experiente de Israel até hoje, terá sérios problemas em acomodar as expectativas dos partidos de ultradireita na coligação governativa. Ele terá de manter a paz com quase metade da população israelita que não votou para o trazer de volta ao poder, sem falar na resposta às ações dos palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

Esta é a situação habitual quando, em tempos de instabilidade, alguns políticos ganham as eleições prometendo coisas que não serão fáceis de implementar sem algumas consequências graves em muitas frentes. Como resultado, há dois problemas no futuro próximo, um devido à população israelita ideologicamente divergente dos partidos no poder e o segundo devido à falta de qualquer tipo de processo de paz com os palestinos, que é o único caminho a seguir para manter Israel em segurança.

A esquerda israelita perdeu a maior parte da sua influência política no país, onde o Partido Trabalhista (centro-esquerda), sendo crucial no estabelecimento da independência israelita, terá apenas quatro lugares no Knesset (em 120). Os membros

da ala esquerda, Meretz, não se qualificaram para entrar no Knesset e seguirão as suas sessões apenas pela televisão.

Mais uma vez a questão final será se Israel irá ser um estado judeu ou democrático, ou ambos. Como lá chegar não é muito claro, mesmo para aqueles que afirmam saber o que estão a fazer.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal

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