A Europa que não vemos porque não queremos ver

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A pareidolia é um desses truques da mente que nos acompanha desde sempre: vemos padrões onde eles não existem, rostos onde só há sombras, intenções onde só há acaso. É um mecanismo antigo, quase instintivo. Mas, no debate público, transforma-se num problema sério.

Nas redes sociais, essa tendência ganha escala industrial. Criam-se narrativas simples, repetidas até à exaustão, que dispensam factos e sobrevivem apenas porque confortam quem as partilha. São ideias feitas, embaladas para consumo rápido, que substituem a realidade por versões emocionais e fáceis de digerir. E, como sabemos, são terreno fértil para discursos populistas.

Uma dessas narrativas é a de que a Europa é militarmente fraca, incapaz de financiar a sua própria Defesa e condenada a depender eternamente dos outros. A frase circula com a mesma leveza com que se partilha uma fotografia de um “rosto” numa nuvem. Parece evidente. Mas não passa disso: uma ilusão.

Os números contam outra história. Em 2025, a União Europeia consolidou-se como a segunda maior economia do mundo em termos nominais, ultrapassando a China. Os dados do Eurostat mostram uma economia robusta, com crescimento do PIB, desemprego estabilizado e uma base industrial que continua a expandir-se. A edição de 2025 de Key Figures on Europe, da Comissão Europeia, confirma o peso económico do bloco, a força da sua indústria transformadora e o capital acumulado ao longo de décadas.

"O chanceler alemão disse há dias que  o futuro passa por uma Europa capaz de se defender a si própria e, quando  as condições  o permitirem, por um entendimento pragmático com  a Rússia. Chama-se a isto realismo.”
"O chanceler alemão disse há dias que o futuro passa por uma Europa capaz de se defender a si própria e, quando as condições o permitirem, por um entendimento pragmático com a Rússia. Chama-se a isto realismo.”EPA / Christopher Neundorf

Ou seja: a Europa tem meios, escala e capital. O que muitas vezes lhe falta é confiança - e, sobretudo, libertar-se das narrativas que a diminuem. Narrativas que, não por acaso, são amplamente difundidas por quem pretende enfraquecer a União Europeia enquanto projeto político e geoestratégico. Se a Europa fosse a vestal indefesa que descrevem, não investiriam tanto tempo e recursos na tentativa de a destruir.

A ideia de que o continente não pode financiar a sua própria Defesa ignora que a UE e o Reino Unido, em conjunto, dispõem de recursos comparáveis aos das maiores potências globais. Ignora que vários Estados-membros têm vindo a reforçar os seus orçamentos de Defesa desde 2022. Ignora que a Europa continua a ser um dos maiores polos mundiais de investigação tecnológica e industrial. Há desafios? Evidentemente. Mas os Estados Unidos e a China também têm os seus - e não são poucos.

O que está em curso é uma mudança estrutural: a Europa percebeu que a autonomia estratégica deixou de ser um conceito académico e passou a ser uma necessidade prática. E essa mudança implica assumir responsabilidades que durante décadas foram delegadas. A Alemanha, em particular, prepara-se para finalmente assumir a liderança europeia em matéria de Defesa. Não por acaso, o chanceler Merz afirmou recentemente que o futuro da segurança europeia passará por uma Europa capaz de se defender por si e, a prazo, por um entendimento pragmático com a Rússia, quando houver paz e as condições políticas o permitirem. Não é ingenuidade; é uma leitura realista da geografia, da economia e da História.

A pareidolia que nos leva a ver fraqueza onde há força e caos onde há transformação impede-nos de reconhecer o que está à nossa frente. A Europa é um gigante económico que começa finalmente a perceber que tem de agir como tal.

Diretor do Diário de Notícias

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