A Europa, entre a Fada Madrinha e a Bruxa Má

Os últimos tempos mostraram como a volatilidade da construção da União Europeia é ao mesmo tempo invocada por adeptos e adversários para justificar pôr-lhe termo ou para a aprofundar. No meio ficará quem vê nessa volatilidade uma virtude. A Europa é uma construção dependente da vontade dos povos e dos Estados, não é um fim em si mesma nem é o fim dos Estados. Criticá-la não equivale a declarar-lhe o óbito, reconhecer-lhe vantagens não implica ter de ser acrítico.

Comprar vacinas em conjunto era, com toda a probabilidade, a melhor opção que os europeus tinham. Para além do reduzido poder de negociação que cada um dos países da União Europeia teria se tivesse sido cada um por si, por esta altura, em vez de discutirmos a falta generalizada de vacinas na Europa, provavelmente estaríamos a discutir por que razão uns Estados tinham conseguido mais do que outros ou porque estavam a impedir a exportação de vacinas dentro do mercado interno. Não há nenhuma razão para achar que essa alternativa teria dado melhores resultados ou que era obviamente melhor. O que não equivale a dizer que correu tudo bem.

Face à questão das vacinas e à comparação com o Reino Unido (como, de resto, face à gestão da pandemia desde o início), organizaram-se dois campos: os que esperam que tudo prove como foi um erro fatal para os britânicos terem saído e os que anseiam por provar que é por estar fora da União Europeia que o Reino Unido vai ter sucesso. Ambos partem do mesmo problema: acreditar que a fragilidade da construção europeia prova o respetivo argumento. E, na verdade, quanto mais insistem, mais mutuamente reforçam a posição dos seus adversários.

Para a claque pró-britânica, depois de algum silêncio e embaraço durante a fase inicial da gestão da pandemia, a autonomia na aquisição de vacinas, o avanço do processo de vacinação e a solidez de Boris Johnson perante as dúvidas sobre a vacina da AstraZeneca provam que é fora da Europa que está o rumo e que, dependendo da burocracia de Bruxelas e da sua má gestão, estamos condenados à miséria. A solução será sair enquanto é tempo (supondo-se que no dia seguinte seremos poderosos, ricos e bem liderados como os britânicos).

Do outro lado, entre os que quase celebraram a saída do Reino Unido porque finalmente partia o maior empecilho a mais integração, a má gestão inicial e o egoísmo quanto à produção e distribuição de vacinas provam como o Reino Unido é pérfido e como a Europa precisa de ser mais centralizada para ter poder face aos Estados e no mundo. E nem o problema da relação com a AstraZeneca os faz duvidar. Aliás, entre esta facção, achar que necessariamente houve erros de Bruxelas, quanto mais não seja porque não soube ou não teve força para se impor, equivale a duvidar da Europa e a alimentar os que a querem minar. Em ambos os casos, a Europa não se discute. Acaba-se ou aprofunda-se.

A Europa não pode ser sempre e apenas a Fada Madrinha que dá pontes, estradas, subsídios, mercados. Ou vacinas mais depressa que os britânicos. Mas também não se transforma em Bruxa Má e tem de fechar as portas se cometer erros ou for criticável. A Europa precisa mesmo é de ser discutível e discutida.

Consultor em assuntos europeus

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