“Não sei como não apanhar gripe.”Alfred W. CrosbyProfessor universitário e historiador norte-americano, com vasta obra sobre a história das doenças (1931-2018) O passado dia 28 de janeiro marca um dia inesquecível na nossa memória coletiva. Nesse dia fatídico assinalou-se a entrada em território nacional de um fenómeno meteorológico de grandes dimensões: a depressão Kristin. O resultado final foi uma tragédia pessoal e uma calamidade nacional. Ainda é cedo para determinar a abrangência das repercussões deste evento, mas os cálculos iniciais, além das vidas perdidas, apontam para milhões de milhões em danos e prejuízos.Muito já se escreveu sobre a Kristin e muito mais ainda falta escrever. Do que já foi publicado, ficou registada a insuficiente monitorização e desvalorização destes fenómenos, a impreparação confrangedora, as limitações da maioria dos sistemas de apoio e a ausência de uma resposta articulada em tempo útil. Se faltaram antecipação, preparação e capacidade, sobraram caos, destruição e uma dependência preocupante, tudo a par de uma demonstração ímpar de solidariedade da população.Na resposta a uma calamidade desta dimensão, o setor da Saúde é indispensável. A Saúde esteve sempre presente, com uma resposta adequada e sem registos de ineficiências ou atrasos. Para esta resposta, em finais de janeiro e em pleno inverno, contribuiu decisivamente a circunstância da epidemia de gripe ter começado mais cedo e terminado antes da chegada da depressão. Já não havia atividade significativa de gripe no final de janeiro, o que permitiu a resposta desejável. Desta vez, uma feliz coincidência, totalmente independente e não-controlável, mas com múltiplas lições a reter.Se qualquer pessoa pode apanhar gripe, tudo devemos fazer para mitigar esse risco e as suas consequências. Após a pandemia de Gripe A (H1N1) de 2009, foi criada, em Portugal, a rede de vigilância da gripe em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI). Esta rede inclui uma amostra variável entre 12 e 20 UCI, de um total de cerca de 112 hospitais do Serviço Nacional de Saúde.No último relatório foram contabilizados 156 internamentos de adultos, com um pico entre 29/12/2025 e 04/01/2026, que correspondeu ao valor impressionante de quase 20% do total dos internamentos em UCI, dos quais cerca de metade dos doentes tinha menos de 65 anos. Pelo menos 93% tinham indicação formal para vacinação e, destes, incompreensivelmente, a grande maioria (76%) não estava vacinada. A lição é cristalina: se queremos melhorar a preparação, há apenas o caminho da prevenção.Em relação à Kristin e às futuras tempestades, que inevitavelmente voltaremos a apanhar, temos também de nos “vacinar”. Neste caso, aprender com os erros cometidos, ganhar experiência e conhecimento, melhorar a preparação e não repetir o que falhou. Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública