A encruzilhada de um governo em marcha-atrás

No espaço de uma semana, o governo anunciou a vontade de vender a TAP que havia nacionalizado, a intenção de cortar 600 a mil milhões de euros no sistema de pensões e um novo ministro da Saúde com carreira no privado. Nove meses depois de ter sido eleito com uma maioria absoluta que concentrou o voto da esquerda em si, António Costa está a governar contra essa esquerda, que antes o apoiou, contra essa maioria, que nele confiou, e contra um novo líder do PSD, que não o vai largar. Talvez por isso tenha evitado dizer a verdade - rapidamente detetada pelas oposições e televisões - sobre a revisão da lei de atualização de pensões.

Mas de que serve, afinal, uma inverdade tão inevitavelmente desmentida?

De nada.

A questão, tão evidente nos últimos dias, é que o Partido Socialista já não tem forma de fazer política sem fugir à verdade, sem se suster na mentira. Porque das duas uma: ou diz a verdade sobre as medidas difíceis que será forçado a tomar num contexto de crise, e aí será acusado de ter mentido no passado, quando prometeu um país sem austeridade; ou não assume as medidas difíceis que está a ser forçado a tomar no contexto de crise, e é prontamente acusado de desonestidade no próprio dia, como sucedeu esta semana.

Nenhuma das duas é boa. E pior: nenhuma das duas tem solução.

Diante de uma encruzilhada entre mentiras - ou sobre a narrativa difundida no passado ou sobre os cortes escondidos para futuro -, o governo não tem escapatória a uma conjuntura que é europeia e a uma dívida que não deixou de estar entre as mais pesadas da moeda-única.

Politicamente, está agrilhoado entre a ficção que promoveu durante sete anos e a realidade que se aproxima para os que aí vêm. A maioria absoluta de janeiro, tão celebrada entre as hostes socialistas, arrisca trancar o PS numa prisão em que não tem instabilidade política para cair -- e entregar mais uma vez a gestão de sacrifícios a outrem -- nem estabilidade económica para distribuir, e satisfazer o eleitorado que nele vota há sete anos. Não é um dilema, porque não há grande escolha a fazer. Mas é um problema, porque a única solução é esperar que o tempo passe.

Perante a encruzilhada, o governo faz o que pode: recua, em marcha à ré, tentando preservar o máximo de coerência na mensagem e simpatia do eleitorado. À medida que os juros forem subindo, o poder de compra dos mais vulneráveis caindo e a capacidade do Estado diminuindo, será cada vez mais impossível manter esse equilíbrio. Esta semana, a sustentabilidade da Segurança Social pregou um susto aos reformados. Daqui a dias, a indexação dos apoios e prestações sociais será o novo alvo de revisão. E a tragédia do Partido Socialista será essa: quanto mais responsável for, mais votos perderá.

A inversão de visão na Saúde, em que se convidou um ministro que inaugurou PPP"s enquanto secretário de Estado para substituir Marta Temido; na TAP, em que se privatizará aquilo que foi pago com dinheiro dos contribuintes; e no sistema de pensões, cuja fragilidade foi sucessivamente negada pelo PS desde que chegou ao governo, são três exemplos que ocorreram em três dias.

Imaginem os próximos quatro anos.

Colunista

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