A doutrina Biden sobre a China e o bom senso da 'The Economist'

Enquanto se faz o balanço da cimeira em Tianjin entre a subsecretária de Estado dos EUA e o MNE da China, um recente editorial da insuspeita revista The Economist revisitou a postura estratégica dos EUA.

Uma das insinuações do editorial é que, por razões de gestão de política doméstica, Biden "parece sentir que precisa do espírito de Pearl Harbour para ajudar a reacender um sentimento de propósito nacional". Mas, apesar da postura anti-China que perpassa nos republicanos, "é improvável que [estes] passem a apoiar a agenda doméstica de Biden apenas porque tem a palavra 'China' estampada na capa".

Todos os indicadores económicos mostram que a China se tornou uma potência a nível mundial. Em termos nominais, terá a maior economia do mundo (em termos de PPP já o é), é um dos principais parceiros comerciais da maioria dos países e o poder de compra da China Urbana cresce de forma contínua. O acesso ao mercado chinês já é importante e sê-lo-á ainda mais nas próximas décadas. Seja para a Alemanha seja para as Filipinas. Não é inteligente subestimar o quanto os aliados dos EUA têm a perder virando as costas à China. "No Sudeste Asiático, muitos países olham para a América para a sua segurança e para a China para a sua prosperidade. Se forçados a escolher entre as superpotências, alguns podem escolher a China."

A "retórica estridente" de Biden pode ter utilidade para congregar entidades e interesses americanos. Mas torna mais difícil a aproximação a grandes potências emergentes como a Índia, a Indonésia, o Brasil. E "ao colocar o relacionamento como um concurso de soma-zero", "uma luta maniqueísta entre democracia e autocracia", Biden está a sobrestimar a influência dos EUA e a colocar governos de muitos países perante escolhas desconfortáveis que estes não desejam fazer.

Por outro lado, para além da necessidade de adequar a ordem económica e financeira internacional à emergência de novas potências - o que os EUA têm bloqueado - "se a América quiser impedir a China de reconstruir a ordem global à sua imagem, deve defender o tipo de globalização que sempre a beneficiou. No centro de tal abordagem estaria o comércio e o sistema multilateral, incorporando a fé de que a abertura e o livre fluxo de ideias criarão uma vantagem em inovação", como sublinham os editorialistas da The Economist.

A fratura política brutal ocorrida nas últimas eleições presidenciais nos EUA parece subordinar a sua política externa a preocupações domésticas, sendo que tal é tanto mais bizarro quanto poucos líderes americanos têm a experiência internacional, a frieza de raciocínio e a perceção de realpolitik internacional de Biden. Mas a agenda da administração Biden é essencialmente doméstica, centrada na recuperação económica dos EUA e em evitar concorrência forte às empresas americanas. É verdade que os EUA regressaram ao Acordo de Paris sobre alterações climáticas. Mas nem uma palavra é dita relativamente ao TTIP, ao TPP ou a renegociá-los.

Este editorial eivado de bom senso reflete as preocupações de uma parte relevante das elites europeias e asiáticas. Como bem remata a The Economist, "em vez de copiar o tecnonacionalismo da China, uma América mais confiante devia afirmar o que tornou o Ocidente forte".

Consultor financeiro e business developer
www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG