A defesa do imbecil

Algures no final do século XIX, no tribunal de Jackson, Tennessee, o comerciante Marlin Heady enfrentava inevitável pena de prisão por produzir Moonlight, bebida alcoólica ilegal. Contou Elmer Hinton, do jornal Nashville Tennessean, que o seu advogado, o pitoresco John "Yankee John" Stafford, teve então uma ideia.

"Marlin, tu não tiveste uns ataques nervosos no passado?", perguntou o jurista. "Tive sim, Yankee John", respondeu o comerciante. "E podes ter outro?".

O que se passou depois ficou na história daquele tribunal e da justiça americana: ao ser perguntado pelo juiz se se declarava culpado, Marlin espumou pela boca, fez caretas, berrou, rosnou, esganiçou e esbravejou à medida que se aproximava, ameaçador, da tribuna. Foram necessários três funcionários para o retirar da sala. O juiz, ainda a tremer, virou-se então para Yankee John e indagou como ele declarava o seu cliente, "culpado ou inocente"? "Inocente por imbecilidade, excelência". E Marlin foi absolvido.

Daí em diante, a idiot defense, como foi cunhada nos Estados Unidos a estratégia de Yankee John e Marlin Heady, foi repetida múltiplas vezes, sobretudo por altos quadros de empresas acusados de fraude e corrupção, ainda que de forma menos teatral: "não sabia de nada", "não fui informado", "não posso ter conhecimento de tudo o que se passa na minha firma".

No Brasil desta semana repetiu-se a cena, a propósito do último escândalo do governo de Jair Bolsonaro.

O caso envolve um funcionário do ministério da Saúde, que se queixou ao irmão, um deputado bolsonarista, de estar a sofrer pressões incomuns dos chefes para aprovar a importação da vacina indiana Covaxin - a um preço sobrefaturado, em tempo recorde, sem aprovação da agência de vigilância estatal e através de um intermediário pouco recomendável. Tudo isso no contexto de um governo que, ainda no ano passado, preferiu deixar os brasileiros à morte a comprar imunizantes oferecidos, repetidas vezes, a preço de banana pelos mais fiáveis laboratórios do mundo.

Os dois transmitiram as suspeitas a Bolsonaro, que se terá limitado a dizer que seria um "rolo" (esquema ilícito) de Ricardo Barros, o líder parlamentar do governo na Câmara dos Deputados, e que iria investigar. Mas não investigou nada porque depende de Barros, e de outros deputados oportunistas como ele, para se blindar na Câmara de Deputados, em caso de impeachment.

Bolsonaro, o mesmo que em campanha se dizia avesso a este "toma lá dá cá" com deputados. Bolsonaro, o mesmo que em campanha clamava ser intolerante com a corrupção. Bolsonaro, o mesmo que, já eleito, se mostrava tão cioso do preço e da qualidade das outras vacinas.

Bolsonaro, o mesmo que se vangloriava em outubro de que no seu governo "manda quem pode" (ele) e "obedece quem tem juízo" (os ministros), quando proibiu o então titular da Saúde de comprar a chinesa Coronavac só por ter sido negociada por um rival político, diz agora que, coitado, não sabia de nada.

"Não tenho como saber o que acontece dentro dos ministérios, eu nem sabia como estava o negócio da Covaxin, são 22 ministérios, confio nos meus ministros".

Como esse tipo de defesa foi chamada de "imbecil" ou de "idiota", o atual presidente do Brasil está, logicamente, habilitadíssimo a utilizá-la, mais de um século depois do episódio de Jackson, Tennessee. Só não espumou pela boca, embora tenha faltado pouco quando uma jornalista o confrontou com o escândalo.

Jornalista
Correspondente em São Paulo

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