A catástrofe natural que se abateu sobre a zona centro do país expôs as fragilidades da resposta do Governo em situações de crise. Não se trata de colocar em causa a competência técnica ou a boa vontade das pessoas responsáveis, dos ministros aos secretários de Estado, dos técnicos da Proteção Civil aos militares. O problema é estrutural e, também, comunicacional. E ficou visível para todos: numa altura em que centenas de milhar de pessoas estão aflitas, sem acesso a bens essenciais e assustadas com o que poderá acontecer assim que o sol voltar a pôr-se, o Estado português não tem conseguido transmitir confiança e coordenar esforços no apoio às populações afetadas. No terreno, tem sido evidente a desarticulação. O episódio, noticiado pelo DN, em que o Exército teve de “contornar” a Proteção Civil para poder atuar, articulando-se diretamente com as autarquias, mostra como temos um sistema que privilegia a burocracia em detrimento da eficácia. Quando enfrentamos uma situação de catástrofe, não há tempo para disputas entre “quintinhas”. São necessárias rapidez e uma cadeia de comando inequívoca. O país não pode assistir, incrédulo, as Forças Armadas que se veem obrigadas a negociar a sua presença como se fossem um ator secundário, quando deveriam estar na linha da frente desde o primeiro minuto. Por outro lado, na comunicação política também se registaram falhas. Em primeiro lugar, o vídeo promocional protagonizado pelo ministro da Presidência, Leitão Amaro, foi um passo em falso. Para além das acusações, que lhe foram dirigidas, de aproveitamento da catástrofe, o ministro passou uma imagem de uma certa falta de empatia pelo sofrimento alheio. Em segundo lugar, a ministra da Administração Interna revelou-se incapaz de se afirmar como líder num momento em que as pessoas da precisavam de uma figura firme e empática, que lhes transmitisse alguma serenidade.Numa crise, o que conta é a capacidade de comunicar com eficácia, de mobilizar recursos rapidamente e de criar condições para que os problemas das pessoas sejam resolvidos com a maior celeridade. O exemplo das antenas Starlink é paradigmático. Foi um empresário privado - Marco Galinha, acionista do DN -, quem tomou a iniciativa de comprar e instalar estes equipamentos para ajudar a restabelecer comunicações nos concelhos de Pombal e Leiria. Onde estava o Estado?A explicação reside, eventualmente, na falta de visão estratégica e na inexistência de uma cultura de proximidade. Os autarcas de Leiria e Coimbra, Gonçalo Lopes e Ana Abrunhosa, mostraram o caminho que o Governo deveria seguir. Ambos revelaram muito pragmatismo, um contacto direto com as populações e soluções rápidas.O desafio agora é aprender com os erros, reformar os mecanismos de resposta e, sobretudo, compreender que em momentos de crise a comunicação faz parte da própria essência da liderança.