A coragem de ter medo

Há vários dias que, primeiro, trabalhadores, depois, cidadãos, estão a sair às ruas em várias cidades da China. Para protestar. Primeiro, por causa da política de COVID zero; depois, e por arrasto, a reclamar liberdade; mais tarde, pasme-se!, a pedirem a demissão do presidente do Partido Comunista Chinês que é, por inerência, o presidente do país. Um país onde o partido é o estado.

Há diversos factos espantosos em tudo isto. Primeiro, o facto de cidadãos estarem a sair às ruas, em protesto. Só isso, num regime com dois sistemas, só isso é de uma coragem assinalável, de uma ousadia raramente vista, sobretudo vinda das ruas, de cidadãos que não são "ativistas", artistas, escritores ou políticos. São gente normal, que exibe cartazes em branco porque há censura no país, gente que tem medo, e que tem razões para isso, mas que tem coragem suficiente para ter medo e, ainda assim, fazer-se ouvir. Sabemos como começam os protestos, nunca sabemos como vão acabar. Para já, o regime tem tolerado os ajuntamentos e a gritaria, tem sido complacente e paciente. Não é possível tentar adivinhar o que se segue. Se o engrossar dos protestos - dos mil de hoje para dez mil amanhã, cem mil depois, dez milhões na semana a seguir - se uma repressão cirúrgica e discreta, que manda prender todos quantos ousarem discordar.

Mesmo com um exército poderosíssimo e uma polícia repressiva e omnipresente, se as manifestações perdurarem, engrossarem e, sobretudo, continuarem a ser vistas fora da China, talvez seja este o princípio de alguma coisa. (Gosto sempre de recordar o fim do muro de Berlim: começaram, do lado oriental, por ser cem, depois mil, depois dez mil, depois cem mil... e de repente o regime percebeu que não os podia matar a todos. Nem prender a todos. O estado de decadência da RDA e as trapalhadas que se seguiram abriram espaço para aquela que foi uma das maires transformações da segunda metade do século passado. Esses cidadãos também tinham medo, mas tiveram a coragem de ter medo).

No maior palco do mundo, a seleção da Alemanha tapou a boca, a inglesa ajoelhou-se, e estes gestos, por serem simbólicos e feitos por estrangeiros, têm, obviamente, o seu valor e a repercussão esperada. Mas há uma outra seleção, a do Irão, que, mais uma vez, teve coragem de ter medo e de o ultrapassar. Ao ficarem em silêncio durante o hino do país, os atletas iranianos não estavam apenas, como alemães e ingleses, a fazer um protesto simbólico e solidário. Estavam a arriscar a sua própria vida, a vida das suas famílias, a desafiar (mais) um regime opressivo e implacável, fanático e medieval. E, tal como os cidadãos chineses que estão a sair às ruas, os iranianos que também se manifestam há várias semanas, todos os dias, com centenas de mortos já contabilizados, milhares de prisões e uma repressão policial de uma brutalidade chocante e de uma cegueira total, são esses cidadãos que querem ser livres, e que estão dispostos a dar a vida pela luta pela liberdade, democracia, liberdade de expressão e de escolha.

Na Rússia, as mães escreveram uma carta aos deputados da Duma, a pedir o fim da guerra. Não só em seu nome e dos filhos que geraram, mas também em nome das mães dos soldados ucranianos, que tombam todos os dias em batalhas que não provocaram, numa guerra que não terá vencedor, porque nunca ninguém ganha uma guerra. A condição de mães, permite-lhes enfrentar os poderes. Podem até ser presas por isso. Mas, que importa a prisão, a tortura e a morte, quando se perde um filho? Talvez, neste caso, elas já nem sequer tenham medo e muito menos coragem. Talvez só já não tenham mais nada a perder.


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