A Conquista da Groenlândia. Uma Guerra Absurda

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No mundo caótico, a Teoria do Caos parece estar a ser substituída pela Teoria do Louco. Teoria da política externa americana associada ao presidente Richard Nixon. Nixon, era um político experiente e um profundo conhecedor da geopolítica. Donald Trump, é o contrário, um narcisista, volúvel, e um profundo desconhecedor da história e da geopolítica.

O apoio de Trump à narrativa do Kremlin sobre a guerra na Ucrânia, têm sido motivo de alarme e desanimo na Europa. Agora, e de forma ainda mais perturbadora, Trump evocando um precedente datado dos tempos mais negros da Guerra Fria, insiste na tomada de posse da Groenlândia, não excluindo o uso da força militar. Uma guerra no Ártico será um absurdo, dispendiosa e contra produtiva.

A NATO sempre pautou a resolução de diferendos entre os seus membros pela via diplomática. É um facto que a Groenlândia é vital para os interesses estratégicos da América no Ártico, como o é para a Europa. A questão da Groenlândia deve ser resolvida pela via negocial, através de acordos já existentes, e nunca pela ameaça ou utilização da força militar.

A Groenlândia é uma zona autónoma e parte do Reino da Dinamarca. Cabe à NATO garantir a segurança e defesa dos interesses estratégicos da Aliança na área do Ártico. Os EUA são o membro mais importante da Aliança. Segundo, o Acordo de Segurança e Defesa de 1951, assinado entre a Dinamarca e os EUA. sobre a Groenlândia, é permitido aos EUA manter bases militares e acesso de defesa à ilha.

Curiosamente. o Acordo de Segurança e Defesa entre Portugal e os EUA (Acordo de Auxílio Mútuo para a Defesa) foi assinado em 1951. O Acordo formalizou a cooperação militar e permitiu aos EUA o uso da base das Lajes nos Açores.

Assumir o controlo da ilha não ofereceria qualquer dificuldade. A Groenlândia não tem forças territoriais, e apenas meia-dúzia de pequenos navios e helicópteros. Argumentam alguns analistas: teoricamente, a ilha seria capturada numa questão de horas. e simplesmente declarar a Groenlândia como território americano.

A experiência mostra, contudo, que aquilo que parece simples, pode tornar-se assaz complexo. Os planeadores militares sabem como os conflitos começam, mas raramente sabem como e quando acabam. Um exemplo recente, o Kremlin planeou conquistar Kiev em dias e, passados quase quatro anos, a guerra continua.

No cenário mais improvável, assumindo que a Dinamarca, solicita a ativação do artigo 5 da Aliança, e que os países europeus da NATO respondem afirmativamente, abrir-se-á a “caixa de pandora” e logicamente o fim da NATO, conforme a conhecemos. Poderá prevalecer, mas com outro formato e sem os EUA. Para os americanos, aquilo que se previa ser uma simples operação militar, poderá não ser “um passeio no parque” e tornar-se num verdadeiro pesadelo logístico.

A América mantem na Europa um contingente militar, entre 80 a 100 mil militares. Dispõe de bases e infraestruturas militares em múltiplos países europeus. O diferencial de capacidades militares entre os EUA e a Europa é significativo, claramente a favor da América. Contudo a Europa não está totalmente desarmada - longe disso.

Assumindo que as bases militares americanas na Europa não estariam disponíveis para apoiar as operações americanas na região do Ártico, devido ao conflito entre a Europa e os EUA, as dificuldades logísticas seriam enormes. É previsível que os americanos baseassem as suas operações em força aeronavais, através da projeção para o Ártico de dois ou três porta-aviões e os seus “battle groups”.

A Europa não está isenta de dificuldades. A ideia de um exército europeu dentro da UE, que de facto não existe, é uma falácia. Não há órgãos de comando conjunto e integrado: os que existem estão na estrutura da NATO. Em caso de conflito com os americanos seria urgente a criação de um comando conjunto e integrado europeu, aproveitando as infraestruturas da Aliança.

As probabilidades de uma anexação/invasão da Groenlândia são ainda assim extremamente reduzidas, por se tratar de uma guerra absurda e de uma total insanidade.

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