A complexidade moçambicana

No seguimento do ataque terrorista à vila de Palma, 18 organizações da sociedade civil endereçaram uma carta aberta ao presidente de Moçambique. Para além da condenação dos atos de violência, a missiva expressa a preocupação existente e lembra ao presidente Filipe Nyusi que uma situação de crise tão grave como a presente exige mais e melhor comunicação pública por parte dos dirigentes nacionais. Percebe-se, assim, que a liderança do país não presta a devida atenção à obrigação de manter os
cidadãos informados. A prática de minimizar os problemas é a norma. Não podemos ficar surpreendidos. A opacidade, a arrogância e o distanciamento são três das características que têm tradicionalmente definido a cultura política das elites no poder em Maputo.

Também se nota que os cidadãos não entendem qual é a estratégia do governo, para além do uso das forças armadas, que mostraram, aliás, não estar inteiramente preparadas para o desafio. As ONG não acreditam na capacidade militar nacional e sabem que não há tempo para esperar pelo treino de forças especiais em número suficiente. É verdade que formar tropas especiais é essencial. A disponibilidade expressa pelo governo português para o fazer é de louvar. Mas a situação é urgente, por razões humanitárias e não só. O que agora ocorreu em Palma, e que já havia acontecido em Mocímboa da Praia e noutras sedes distritais da província de Cabo Delgado, pode alastrar-se ao longo da costa norte, sobretudo para as áreas onde o suaíli é a língua franca. As ONG recomendam que as autoridades peçam ajuda em matéria de segurança à Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral e à União Africana. Não creio que o façam. Não querem olhos críticos nem dar a impressão de que o problema requer um envolvimento regional.

É evidente, no entanto, que se trata de um conflito mais sério do que se poderia pensar até agora. A ofensiva contra Palma foi planeada de modo profissional. Uma das conclusões que se deve tirar é clara: por detrás de tudo isto há uma mão organizadora. É fundamental desmascarar essa mão, que me parece bem mais sofisticada do que uma vaga conexão jihadista.

Aparentemente, o objetivo central é impedir que o megaprojeto do gás, que está a ser lançado na região, avance.
O preço do gás natural nos mercados internacionais está a um nível historicamente baixo e a tendência é para que assim continue. Não interessa aos grandes produtores de gás que apareçam novos competidores, sobretudo um que poderá ter um peso enorme. As reservas moçambicanas ocupam a terceira posição em África, a seguir à Nigéria e à Argélia. Quando estiverem em exploração - o que só acontecerá se a segurança for restabelecida na província - entrarão em competição direta com o Irão, o Qatar e a Arábia Saudita, que são, respetivamente, o terceiro, o quarto e o oitavo maiores produtores mundiais. Não estou a apontar o dedo a ninguém, mas a geopolítica recomenda que olhemos para dados como estes. Sobretudo se tivermos em conta que a procura futura de gás poderá estagnar, por motivos da luta contra as alterações climáticas. A opinião pública internacional é cada vez menos favorável aos investimentos em hidrocarbonetos.

O ponto fundamental, para além da limpeza de Palma, da ajuda humanitária e da assistência técnico-militar a Moçambique, é tentar compreender as raízes e a dinâmica desta ofensiva terrorista. Minimizar, ignorar as realidades da exclusão social ou insistir em explicações estereotipadas - incluindo as que se referem a pretensas ligações ao chamado Estado Islâmico - seria um erro. Estamos perante uma insurreição capaz de servir certos interesses e fácil de promover. São combatentes que sabem sobreviver com pouco, sem necessidade de uma logística elaborada. As armas provêm das deserções, das emboscadas anteriores, agora do ataque a Palma, e dos mercados ilegais de material militar existentes na África Oriental e Central. Não querem ocupar terreno, mas sim abater os representantes do poder e gerar a insegurança nas áreas com interesse económico, mas com fraca presença do Estado. Por isso, são indivíduos altamente perigosos. Precisam de ser levados a sério, mas sem simplismos.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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