A China, o Indo-Pacífico e as ilusões europeias

Nesta semana, Josep Borrell, que dirige as relações exteriores da Comissão Europeia, e o seu homólogo chinês, o ministro Wang Yi, reuniram-se por videoconferência, no quadro do diálogo estratégico que existe entre ambas as partes. Na véspera, Frans Timmermans, o vice-presidente executivo da Comissão, havia estado em contacto com o vice-primeiro-ministro chinês, para discutir a preparação da COP-26, que começará em Glasgow no final deste mês.

Estas conversações têm o seu mérito. Devem ser frequentes e sem ingenuidades. A UE não pode ter outra postura política em relação à China que não seja o diálogo, a afirmação das suas posições críticas e a procura de interesses comuns. Nesta, como noutras áreas de importância vital para a segurança e a prosperidade da Europa, é fundamental demonstrar que continuamos a acreditar no valor da diplomacia, da clarificação de posições e dos entendimentos. Onde outros apostam na confrontação, os europeus devem ser vistos como os promotores de interdependências estratégicas e de plataformas comuns que contribuam para a segurança internacional e a resolução das grandes questões globais. Se assim se fizer, estaremos a consolidar o papel da UE na cena internacional e a diminuir os riscos de sermos envolvidos em conflitos que não são do nosso interesse. Estaremos igualmente a reduzir a nossa subordinação em relação aos EUA.

Voltando ao diálogo entre Borrell e Wang, vários foram os temas abordados. A maioria está na agenda há muito: direitos humanos, Hong Kong, Xinjiang, Taiwan, o clima de investimentos mútuos, a cooperação internacional, o apoio ao multilateralismo, etc. Mas entre esta reunião e a precedente, que teve lugar em junho de 2020, passou uma eternidade e ocorreram mudanças dramáticas, nomeadamente em Myanmar e no Afeganistão. A política em relação a esses países tinha de fazer parte das discussões. Como também não podia faltar uma referência à estratégica indo-pacífica, aprovada há um par de semanas em Bruxelas. Borrell bem se terá esforçado a explicar que essa nova intenção política não tem como objetivo antagonizar a China. Não terá convencido o seu interlocutor.

Sou dos que pensam que a aprovação dessa estratégia foi um erro. O documento até parece bem escrito, a abundância de recursos no Serviço Europeu para a Ação Externa a isso obriga. Mas é vago, demasiado abrangente, do tipo toca em tudo, e indefinido na priorização dos objetivos incluídos em cada uma das áreas de intervenção. Começa por não se entender bem o conteúdo geopolítico do conceito de Indo-Pacífico. Um estudo recente mostra que diferentes Estados membros veem os contornos da região de um modo distinto. Mais ainda, o conceito está associado à obsessão antichinesa iniciada por Donald Trump e que Joe Biden tem estado a materializar. Assim, para Beijing, a UE mais não faz do que seguir a política americana, embora de modo mais sofisticado, introduzindo no documento uma série de chavões sobre o desenvolvimento e a cooperação.

É verdade que essa parte do mundo, mesmo definida de modo impreciso, tem um peso económico crescente. Representa uma fatia muito importante do comércio externo da Europa: Bruxelas diz-nos que a região é o segundo parceiro comercial da UE. Também é um facto que uma percentagem muito alta do transporte marítimo de mercadorias passa pelo Índico. Mas os verdadeiros desafios na zona indo-pacífica são, para além da pirataria, uma área onde a cooperação com a China é possível, as disputas sobre as fronteiras marítimas entre a China e os seus vizinhos, o futuro de Taiwan, ou ainda as tensões identitárias na Índia, a ditadura militar em Myanmar, a luta pela democracia na Tailândia, no Camboja ou no Vietname, a violência institucional nas Filipinas e assim por diante, sem esquecer o extremismo talibã e as ameaças terroristas. Estas são questões concretas, em relação às quais a UE precisa de definir os seus interesses, o papel que poderá desempenhar e as alianças que serão necessárias.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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