O navio escola da Marinha Portuguesa vai estar a 4 de julho de 2026 em Nova Iorque, juntando-se à celebração dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Mas a Sagres não será apenas mais um entre os muitos veleiros que festejarão o aniversário especial, pois, mesmo que a sua beleza impressione sempre em qualquer porto, neste caso estará a representar um dos primeiros países a reconhecer a independência americana, logo em 1783.A relação entre Portugal e os Estados Unidos é, pois, bem antiga, e cheia de episódios curiosos, como o brinde em 1776, em Filadélfia, à Declaração de Independência ter sido feito com vinho da Madeira, ou ter havido portugueses a combater com George Washington contra a Coroa Britânica. Falo do mítico Pedro Francisco, o “Hércules da Virgínia”, também do menos conhecido João Pedro, ou John Peters, que participou no Boston Tea Party, em 1773, ponto de partida para a chamada Revolução Americana.Mas o mais importante é que a vizinhança atlântica, evidente ainda mais pela localização estratégica dos Açores, tornou os dois países aliados, uma aliança formalizada na NATO, depois da cooperação nas duas Guerras Mundiais. No edifício do Pentágono, nos arredores de Washington, uma sala recorda a fundação da Aliança Atlântica em abril de 1949, com fotografias dos 12 países, a assinar, por ordem alfabética em inglês, de B de Belgium a U de United States. Portugal, 10.º dessa ordem, esteve representado pelo ministro José Caeiro da Mata.A proximidade ideológica do Estado Novo às potências derrotadas do Eixo era bem conhecida nos círculos de poder americanos, mas o anticomunismo do regime salazarista foi decisivo para a integração de Portugal no Bloco Ocidental, pois a Guerra Fria era já indisfarçável, e numa questão de meses a União Soviética iria até testar a sua primeira bomba atómica. Também contou no processo de entrada na NATO a antiquíssima aliança com a Inglaterra, e foi em acordo com os britânicos que Portugal aceitou a presença de tropas aliadas nos Açores ainda a Segunda Guerra Mundial decorria.Os Açores, claro, estiveram em destaque na segunda-feira na 52. ª reunião da Comissão Bilateral Permanente Portugal-Estados Unidos da América, que se realizou em Lisboa, no Palácio das Necessidades. Tanto os comunicados do Ministério dos Negócios Estrangeiros português como da embaixada americana, assim como a declaração conjunta, assinalaram a importância dos Açores nas temáticas da reunião. O lado português realçou mesmo que a importância estratégica da Base das Lajes foi reiterada na reunião Portugal-Estados Unidos, na qual esteve presente o vice-presidente do Governo Regional dos Açores, Artur Lima, que integrou a delegação portuguesa liderada pela embaixadora Helena Malcata, diretora-geral de Política Externa, e que incluiu ainda o embaixador de Portugal em Washington, Francisco Duarte Lopes, e o diretor-geral da Política de Defesa Nacional, Nuno Lemos Pires, além de representantes de vários ministérios..A delegação americana foi liderada pelo subsecretário-adjunto de Estado para a Europa Ocidental, Central e do Sul, Daniel J. Lawton, acompanhado pelo subsecretário-adjunto da Guerra [novo nome do Departamento de Defesa] para as Políticas Europeias e NATO, David A. Baker, e pelo embaixador em Lisboa, John J. Arrigo, entre outros. “A 52.ª Comissão Bilateral Permanente reafirmou o valor estratégico que os Estados Unidos atribuem à sua relação com Portugal”, afirmou o embaixador Arrigo. “Ao aproveitarmos o nosso forte alinhamento político, esta reunião transformou prioridades comuns em cooperação eficaz - aprofundando a nossa colaboração em Defesa, expandindo e equilibrando o comércio, e promovendo iniciativas científicas conjuntas”, acrescentou, segundo a nota de imprensa.A economia é uma vertente importante da relação bilateral, tanto ao nível de comércio (ainda antes da independência americana Portugal já importava cereais das colónias britânicas na América do Norte e vendia o vinho da Madeira, muito apreciado pelos Pais Fundadores), como do investimento e esteve entre os temas prioritários da reunião luso-americana. Também a cooperação em termos de Educação e Ciência foi tratada, com destaque para a entrada de Portugal no grupo de países signatários dos Acordos Artémis para a exploração espacial. E uma outra boa notícia é que o consulado americano em Ponta Delgada, que viu em agosto de 2025 a diplomata Rita Rico iniciar funções sucedendo a Meg Campbell, foi referido como importante no compromisso de reforçar a cooperação entre os dois países nos Açores. Contrariam-se assim especulações surgidas há alguns meses de que poderia ser encerrado por razões de redução de custos. Num momento em que há fricções sérias entre os Estados Unidos e os parceiros europeus da NATO, seja por causa do nível de apoio ao esforço de guerra da Ucrânia ou as declarações de interesse do presidente Donald Trump por uma Gronelândia que é parte da Dinamarca, é importante que Portugal saiba manter fortes as relações com Washington, um dos pilares da política externa nacional, a par da União Europeia. Um importante sinal nesse sentido já tinha sido dado em Haia, na mais recente Cimeira da NATO, com o compromisso para elevar até 2035 o investimento em Defesa para 5% do PIB. Tendo sido uma exigência americana, enquadra-se no atual esforço europeu de investir fortemente em Defesa.Não deixa de ser também relevante no contexto das relações luso-americanas que no mesmo dia o Governo Português tenha anunciado José Manuel Durão Barroso como presidente da FLAD, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.Pela sua experiência como primeiro-ministro, como presidente da Comissão Europeia e como professor na Universidade de Georgetown, em Washington, o novo presidente da FLAD, entidade muito próxima dos cerca de dois milhões de luso-americanos (na sua maioria, com raízes açorianas), terá certamente um papel no fomentar das relações bilaterais. E isto a começar já pela forma como Portugal se associará à celebração dos 250 anos da Declaração de 4 de Julho de 1776, documento cujo principal autor foi Thomas Jefferson, um futuro presidente e mais tarde amigo e admirador do abade José Correia da Serra, embaixador em Washington. Jefferson apreciava tanto as visitas do abade-cientista a Monticello, a sua quinta na Virgínia, que tinha um quarto reservado para o ilustre hóspede português. Diretor-adjunto do Diário de Notícias