A Câmara dos 15 minutos

Quatro meses após a tomada de posse de Carlos Moedas, nada se sabe sobre os seus planos para reduzir as emissões de gases poluentes em Lisboa - pelo contrário. Emergência climática não é com ele.

"Está na altura de entrar em modo emergência" escreveu António Guterres numa mensagem, conhecida esta segunda-feira numa conferência organizada em Lisboa, sobre a necessidade de reduzir as emissões carbónicas. O secretário-geral das Nações Unidas sublinhou estar previsto que as emissões globais aumentem 14% durante a década e apelou a "uma avalanche de ação".

A notícia que li não refere se o presidente da autarquia da capital estava presente na conferência do Clube de Lisboa, onde a mensagem foi ouvida, mas seria interessante saber, ao fim de quatro meses em funções, que tem a dizer sobre a matéria - já que não se lhe conhece qualquer plano nesse sentido.

Aliás, minto: os planos que conhecemos, anunciados no seu programa eleitoral e dos quais não há notícia de ter desistido, vão despudoradamente no sentido de contribuir para que se use mais o transporte individual: cortar para metade o preço do estacionamento para os residentes, tornando-o inclusive grátis nos primeiros 20 minutos, e encher a cidade de silos automóveis. Tudo medidas que incentivam não só a circulação automóvel como até a aquisição dos mesmos (estacionamento fácil é um óbvio incentivo).

Para além disso, como tornou claro há meia dúzia de dias, em discurso na Câmara do Comércio Americana, um dos seus principais objetivos é, tal qual como se estivéssemos nos anos noventa do século passado, "escoar trânsito" - nomeadamente no centro da cidade e num local no qual o seu antecessor tinha planeado situar uma das fronteiras de uma zona de emissões reduzidas (ZER). Refiro-me à avenida Almirante Reis, cuja ciclovia foi, como se sabe, um dos temas da campanha do social-democrata, que prometeu acabar com ela, e que agora declara ter como propósito conseguir voltar a ter ali quatro faixas de trânsito automóvel, mais a ciclovia.

Porque, explica, "o principal problema é escoar o trânsito que sai de Lisboa". O principal problema, note-se, não é a emergência climática - que no seu programa dizia ser "uma das maiores ameaças que o planeta e a humanidade enfrentam" (qual entenderá ser a maior?) -, o alto nível de poluição de Lisboa, nem o facto de termos comprovadamente uma cidade que durante décadas foi pensada em função do automóvel e na qual os transportes públicos de superfície são tanto menos competitivos quanto mais carros circulam - e tanto mais carros circulam, é sabido, quanto mais "escoamento" exista.

O homem que passou a campanha a falar da cidade "dos 15 minutos" - aquela na qual alguém conseguirá, num raio de distância correspondente a esse tempo de caminhada/percurso de transportes públicos, encontrar tudo aquilo de que precisa, parece sobretudo preocupado em apresentar soluções não só para quem nela reside e se desloca de automóvel como também para quem entra e sai nesse meio de transporte. Ou seja, propõe-se aparentemente continuar a acolher as centenas de milhar de carros (estimados em 370 mil) que demandam a capital todos os dias.

Enquanto muitas cidades europeias estão a anunciar ou já a inaugurar zonas de interdição de circulação automóvel poluente - com exceções para residentes, transportes públicos, cuidadores, entregas e pouco mais, como se previa para a ZER da Baixa/ Chiado -, em Lisboa, que tinha um plano pronto a aplicar em 2020, depois de extensas discussões públicas, nada se adiantara até agora sobre o assunto.

O mencionado discurso de Moedas vem clarificar as suas intenções: se quer quatro faixas na Almirante Reis "para escoar trânsito" não está a pensar decerto acabar com o atravessamento da zona central da cidade.

Recorde-se que a ciclovia da Almirante Reis fazia parte do plano da ZER, e funcionava como prolongamento das ciclovias previstas para a Baixa. A ideia era precisamente que o trânsito que "sai", como o que entra, deixasse de passar por ali, e que quer a Almirante Reis quer a avenida da Liberdade desembocassem numa zona de trânsito interdito, desincentivando a circulação nesse sentido.

Era uma mudança difícil - é difícil habituarmo-nos à ideia de que os carros não podem ir a todo o lado, depois de toda a vida os vermos como ubíquos reis e senhores -, mas necessária e urgente. Em vez dela, temos agora um presidente de Câmara que garante já ter andado pessoalmente a medir a Almirante Reis para ver se consegue ali enfiar quatro faixas e mais duas ciclovias, e declara ser necessário falar com o Metro de Lisboa (supõe-se que para que este encontre forma de relocalizar as entradas das estações ou diminui-las para que os passeios não sejam tão largos, ou quiçá mesmo para acabar com eles).

Tudo ao contrário do que era suposto. E a demonstrar que a cidade dos 15 minutos de Carlos Moedas se refere afinal ao tempo que levou a pensar nela.

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