A alma de Ursula e os canhões de Vladimir

A semana europeia recebeu duas grandes mensagens. Uma, a partir de Estrasburgo, é um apelo ao reforço da União Europeia. No essencial, é uma visão construtiva, apesar das dificuldades e dos desvios que estão a ocorrer nalguns estados-membros. A outra, proveniente de Moscovo, procura projetar força, na conceção clássica de poder militar. Esta última é uma mensagem perturbadora, de alguém que vê o futuro pelo prisma da confrontação. Não tem em conta as aspirações dos cidadãos, que querem paz e uma maior proximidade com o resto da Europa. E também não compreende que a cooperação e a interdependência entre blocos constituem as bases do progresso económico e social mútuo.

Ursula von der Leyen fez no Parlamento Europeu o balanço dos últimos 12 meses e propôs um plano de trabalho para o ano que vem. No essencial, o seu discurso sobre o "estado da UE" pode ser visto como uma tentativa de equilíbrio entre sucesso, determinação, incertezas e preocupações. Percorreu os principais pontos da agenda europeia - Covid-19, alterações climáticas, migrações, estado de direito, soberania - bem como o nosso atraso em matéria de semicondutores, algo que será estratégico nesta década. No combate à pandemia, a UE foi muito mais longe que o Reino Unido e os EUA - e também do que a China - em matéria de solidariedade internacional, com a doação de 700 milhões de vacinas a países com menos recursos. A percentagem global de vacinações permanece muito baixa nos países mais pobres, a começar pelo continente africano, a quem devemos, por razões quer históricas quer estratégicas, prestar uma atenção muito especial.

A presidente da Comissão quis "reforçar a alma da nossa união". Na realidade, por detrás dessa designação quase poética encontro uma ponta de desilusão quanto ao estado do projeto europeu. Von der Leyen parece querer sublinhar que existe um impasse - ou mesmo, desânimo - na vontade de construir uma Europa unida. O ano e meio de pandemia, a falta de coordenação das respostas, as restrições relativas às viagens e a possibilidade de acesso, sem grande controlo por Bruxelas, a milhares de milhões de euros por cada um dos estados-membros vieram reforçar as tendências nacionalistas. Em vários casos, os detentores do poder têm estado a aproveitar essas circunstâncias para consolidar a apropriação da máquina governativa nos seus respetivos países. Ao falar da "alma da nossa união", von der Leyen indica claramente que a Europa não se fará apenas com o empenhamento de quem está em Bruxelas. Os líderes nacionais têm de voltar a uma narrativa que mobilize as pessoas para além das fronteiras nacionais.

Em Moscovo, não há tempo para estados de alma. Vladimir Putin seguiu com atenção o exercício militar Zapad 2021. Este exercício, que ontem terminou, teve uma envergadura muito superior ao precedente, realizado em 2017. Segundo dados oficiais, terá mobilizado cerca de 200 mil efetivos, a maioria provinda das forças armadas russas e o resto da Bielorrússia, bem como 80 aeronaves de combate, centenas de tanques e uma quinzena de navios. Estes números não são inteiramente fiáveis, já que Putin gosta de se fazer passar por maior do que efetivamente é. Mas são, de qualquer modo, impressionantes, a uma escala nunca vista desde o fim da Guerra Fria. A área de operações incluiu as regiões próximas da Polónia e dos Países Bálticos, e o Ártico. Consistiu na simulação de uma invasão dos territórios russos ou bielorrussos por tropas ocidentais para, em seguida, treinar a contraofensiva e expulsar os invasores.

Tratou-se de um exercício convencional, como se as guerras de amanhã fossem como as de ontem. Os russos sabem que assim não será. Mas a opção por um exercício em moldes clássicos permite mostrar a todos, incluindo à sua população, o poderio militar de que dispõem. É uma maneira de lembrar à UE e à NATO que a paz naquela parte da Europa depende acima de tudo da manutenção do status quo. Ao apelo de Estrasburgo, Vladimir Putin respondeu com o estrondo dos roquetes do Zapad 2021 e com Alexander Lukashenko a sorrir ao seu lado. Temos razões para ficar inquietos.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG