5,7 mil milhões

O presidente da república portuguesa foi para Angola mostrar-se de calção na espreguiçadeira de uma luxuosa estância balnear da Ilha de Luanda. Já lá tinha estado há duas semanas para o funeral de José Eduardo dos Santos, provocando acrimónias. Agora foi participar na tomada de posse de um regime cleptomaníaco, empossado após umas eleições, no mínimo duvidosas, nas quais as votações finais não foram legitimadas por qualquer órgão isento.

Como se não bastasse exibir-se na praia antes da tomada de posse, declarou: "Nós tivemos um debate sobre legitimidade em Portugal em 2015/2016 (...) uns diziam que deviam ser uns, outros que deviam ser outros, de acordo com a leitura diversa das eleições", referindo-se à constituição da geringonça.

Portanto, para Marcelo, Lourenço ou Costa é tudo farinha do mesmo saco, o Executivo com apoio do bloco e do pc ou este governo de Luanda, vai dar tudo no mesmo. Aviltante ou apenas lhe fugiu a boca para a verdade? Certo é que meteu a dignidade da república no musseque e, depois de ter comentado o processo eleitoral, escusou-se a falar sobre as prisões como se, inopinadamente, encontrasse um tabu e preferisse o silêncio.

Ademais, a agenda do Chefe de Estado Português, destrunfado num segundo mandato a par da maioria absoluta do PS, assemelha-se mais à de um blogger de viagens. Parece que tudo faz para apanhar o avião e evadir-se, nem que seja no porão ou agarrado a uma asa.

Não há festa, nem festança, a que não vá a Dona Constança, mas isto é demais. A inflação a carcomer os ossos aos portugueses e o presidente só pensa fotos e cruzeiros.

A desonrosa estadia naquele que é um dos países menos desenvolvidos do mundo, mais naturalmente ricos, mas também mais corruptos, foi antecedida pela patética celebração do bicentenário da independência do Brasil. E isto apenas dois meses depois de o presidente brasileiro ter desconvidado o inquilino de Belém para um repasto.

Marcelo foi colocado junto a um empresário suspeito e desprezado por um Bolsonaro em campanha. Ou seja, prestou-se a jarrão, a figurante, um triste adereço nas comemorações de outrem.

"Dois meses após ter almoço cancelado, presidente de Portugal é desprestigiado e actua como coadjuvante em Brasília" noticiou o Globo. E vergonha alheia é pouco para descrever o que se sente.

Não há festa, nem festança, a que não vá a Dona Constança, mas isto é demais. A inflação a carcomer os ossos aos portugueses e o presidente só pensa em fotos e cruzeiros. Além da sua própria popularidade, claro. Por isso, promulgou as reformas aldrabadas de Costa em meia hora, mas agora, perante a fúria da opinião pública e publicada, já procura virar o jogo. Não percebe que também na arena nacional adveio apenas decorativo?

Enfim, se falasse, por exemplo dos 5,7 mil milhões de dólares que Angola disponibilizou ao Banco Espírito Santo Angola seria mesmo um presidente. Não lhe interessa quem assumiu esse prejuízo? A garantia soberana concedida por Angola a essa instituição financeira em 2014 foi ou não acionada?

Isso sim, seria próprio e necessário de uma intervenção de Belém. Só que não. O que temos são calções azuis e, já na segunda-feira, nova Marselfie junto ao caixão da Elizabeth. Ai Portugal. Perdes sempre e até na bisca lambida.

Psicóloga clínica.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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