Fazer o balanço de um ano nunca é neutro. Escolher o que fica de 2025 é também escolher o que nos inquieta, revolta e, apesar de tudo, o que nos impede de desistir.As eleições antecipadas de 18 de maio constituem um marco político incontornável. O fim do bipartidarismo tornou-se evidente, mas o que se abriu não foi, como alguns quiseram romantizar, um espaço automaticamente mais plural ou democrático. A ascensão da extrema-direita recordou-nos que o colapso de um modelo não garante a construção de um melhor. Revelou menos maturidade democrática que ressentimento acumulado, menos projeto coletivo que medo mobilizado.Ainda assim, 2025 não foi só um ano de recuos. A greve geral demonstrou que a resistência continua possível. O Governo foi encostado à parede. O entendimento entre a CGTP e a UGT, apesar de décadas de desconfiança, foi um sinal político relevante. Perante a iminente aprovação de um pacote laboral profundamente lesivo, a forte adesão das trabalhadoras e dos trabalhadores mostrou que a dignidade é uma exigência concreta, capaz de gerar mobilização e ação real, corajosa.A cultura devolveu-nos também algum sentido. Maria João Pires, ao anunciar o fim da sua carreira, encerrou um ciclo com a mesma discrição luminosa que sempre a caracterizou. O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva foi mais do que um reconhecimento individual: confirmou que a cultura, quando entendida como serviço público, continua a ser um gesto político. Num tempo de ruído, lembrou-nos o valor do silêncio e da escuta.No plano internacional, o retrato é sombrio. A Europa confirmou a sua incapacidade de afirmar um caminho autónomo para a paz. Subalternizada face aos Estados Unidos e presa à lógica da guerra como inevitabilidade, mostrou-se politicamente frágil e moralmente hesitante. A ideia de uma Europa como projeto de paz e pluralidade parece cada vez mais distante.Do Brasil chegou uma notícia que nos dá esperança: a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado contra a democracia. Não apaga os danos causados, mas quebra a narrativa da impunidade permanente dos poderosos, enfrentando a chantagem de Trump.Como figura inspiradora, surge Claudia Sheinbaum, presidente do México. Primeira mulher a ocupar o cargo, de esquerda, afirmou com clareza a independência económica e política do país, sem subserviência. Ao trazer as populações originárias para o centro do poder, não como folclore, mas como sujeitos políticos, transformou a simbologia em justiça histórica.Em Portugal, importa sublinhar a luta das pessoas com deficiência e das suas organizações, como o Centro de Vida Independente. O ano terminou com retrocessos claros, nomeadamente no acesso ao apoio para o cuidador pessoal, revelando como se mede, na prática, o compromisso do Estado com os direitos humanos.Entrando em 2026, naturalmente formulamos desejos: o fim do martírio do povo palestiniano, o combate efetivo à violência de género e uma reflexão séria sobre o modelo económico em que vivemos. Talvez o maior desafio, urgente, seja construir uma nova resposta política à esquerda, capaz de reconstruir a esperança. Porque sem projeto coletivo o vazio será sempre ocupado pelos piores. Dirigente da Associação Política Cidadãos Por Lisboa