Enquanto isso, na América Latina – 1

No momento em que escrevo a presente coluna para publicação nesta terça-feira, ainda não são conhecidos os resultados das eleições presidenciais do último domingo, 6, no Peru. A disputa foi renhida e tanto poderia sair vitorioso, surpreendentemente, o candidato progressista, Pedro Castillo, como a candidata conservadora, Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori. Depois de um mês atrás de Castillo nas sondagens, Fujimori conseguiu empatar nos últimos dias da campanha e parecia estar a viver um momentum capaz de levá-la a assumir a cadeira presidencial do país.

Nos últimos cinco anos, o Peru teve cinco presidentes, à média de um por ano. Desde 1989, todos os chefes de Estado peruanos passaram uma temporada na prisão, por causa da corrupção. O país vive uma profunda crise sanitária, económica e social. Desde logo, conta com mais de 185 mil mortos por causa da covid 19, o que o torna a nação do mundo com mais falecimentos per capita devido à pandemia. Quanto à economia, o PIB peruano caiu 11%, o maior em três décadas. No plano social, o nível de pobreza aumentou dez pontos desde 2019 e, hoje, 30% da população não consegue satisfazer as suas necessidades elementares.

Esse cenário explica a surpresa de Pedro Castillo, que venceu a primeira volta das eleições. Professor e líder sindical, tornou-se conhecido há cinco anos durante uma greve do setor, mas depois como que "desapareceu". Reapareceu nas atuais eleições, apoiado por um partido marxista-leninista - embora ele próprio não se considere como tal - e, graças a um discurso antioligarquias, liderou a campanha até aos últimos dias, quando Keiko Fujimori conseguiu encostar-se a ele, tornando imprevisível o desfecho do pleito.

Castillo percorreu todo o país com a sua retórica popular. Além da campanha contra as elites económicas e as castas sociais que dividem o Peru, assim como da promessa de medidas para beneficiar os grupos sociais mais pobres, não hesitou igualmente em defender posições moralmente conservadoras, manifestando uma aberta oposição ao aborto e ao casamento homossexual. Isso choca, por certo, os setores progressistas "ocidentais", mas é facilmente explicável no contexto latino-americano e de outras sociedades mais pobres, onde a naturalização de novas práticas sociais, nomeadamente sexuais, ainda não é unanimemente reconhecida.

Para dar outro exemplo, é por isso que no Brasil ainda há um contingente razoável de pobres e negros que apoiam Bolsonoro, apesar de este ser, mais do que reconhecido, um autodeclarado misógino e racista.

A verdade é que o establishment peruano sabe perfeitamente que Pedro Castillo é o seu "inimigo de classe". Assim, posicionou-se abertamente ao lado de Keiko Fujimori, alertando para o "perigo comunista" supostamente protagonizado por Pedro Castillo, para o risco da implantação do "chavismo" no país e até para a iminência da fuga de milhares de peruanos em balsas rumo a Miami, como os refugiados cubanos. Previsivelmente, a grande imprensa do país tomou partido declarado a favor da filha do antigo autocrata Alberto Fujimori. A maior parte do empresariado local alinhou igualmente no discurso alarmista anti-Castillo. Ou seja, nada de novo na "frente ocidental".

O sintomático é que Keiko Fujimori está enredada até à medula em casos de corrupção e, se não for eleita, corre o risco de vir a ser condenada pelos tribunais peruanos a 30 anos de prisão. A hipótese de ela se tornar a nova presidente do Peru confirma que a burguesia só combate a corrupção que não lhe convém e quando convém. Uma nota final, para lembrar que a burguesia não tem pátria.

Escritor e jornalista angolanoDiretor da revista África 21

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