Vou, como sempre, torcer pelo encarnado... da Ferrari. Mas o meu estádio pisca

Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

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Só deve haver duas pessoas no país que estão absolutamente indiferentes ao que acontece nos relvados entre os dias 11 de junho e 19 de julho: eu e Pacheco Pereira. E estou a presumir quanto ao historiador, que não conheço, mas que é famoso pelo seu desinteresse pelo “pontapé na bola”.

Mas, lá por não conseguir encontrar grande interesse no futebol — que é objetivamente um desporto com pouquíssima atividade e quase nenhuns golos, demasiados empates e uma duração exageradíssima para aquilo que (não) acontece no relvado —, não quer dizer que o fenómeno me passe completamente ao lado. Até por questões profissionais.

E mesmo quanto aos comentários sobre o desporto propriamente dito que acabei de escrever, quem sou eu para criticar… Sempre que há Grande Prémio de Fórmula 1 acompanho aquilo de fio a pavio. Mesmo naqueles domingos em que a corrida mais parece um comboio de carros do que a melhor conjugação da ciência e engenharia com a capacidade atlética humana alguma vez inventada — talvez excluindo Le Mans, claro. E lá estou eu a torcer pela Ferrari, mesmo nos piores momentos!

But I digress… No fundo é todo o fenómeno futebol que me passa ao lado, começando logo por aquilo a que o zoólogo Desmond Morris chamou “caça por procuração” (by proxy). Se o desporto é o substituto da atividade primitiva da caça (o que é objetivamente evidente), o facto de as pessoas verem as vitórias dos atletas e celebrarem emotivamente como suas, com efeitos biológicos mensuráveis, a nível hormonal, e na linguagem ("ganhámos", "perdemos", etc…) com uma intensidade quase doentia é algo que me ultrapassa. Sim, como disse, “torço” pela Ferrari, pela história, pela engenharia, pelo prestígio, pelo design… mas se levasse isso ao nível a que a maioria dos adeptos de futebol vibra com cada lance falhado do Ronaldo precisaria de mesmo MUITA terapia!

A natureza humana é muito estranha. A começar pela minha, com certeza… que precisa de outros estímulos visuais para não se aborrecer.

Só que, curiosamente, dou por mim a ver mais jogos deste Mundial 2026 do que habitualmente — e não por motivos profissionais. Tudo porque, sem querer, criei um “estádio virtual” em casa com apenas quatro luzes.

Por ter adotado, este ano, a Philips Hue como solução de iluminação na minha smart home, passei a ter acesso à funcionalidade de sincronizar a iluminação com os jogos do Mundial. Isto associado ao “tema” Estádio (que ilumina de verde as luzes do lado da TV e branco as do lado do sofá) cria um ambiente que estende a experiência de forma interessante: as lâmpadas piscam ou mudam de intensidade sempre que acontece algo de relevante no jogo (início, intervalo, faltas, etc.); piscam amarelo ou encarnado sempre que é apresentado um cartão da respetiva cor; e fazem a “festa” com cores da respetiva equipa quando (raramente…) se marca um golo.

Não apenas é giro como dá imenso jeito para chamar a atenção — porque eu obviamente não aguento os 90 e tal minutos (agravados agora com as pausas para “meter água”) sem me pôr a olhar para um outro ecrã qualquer… No jogo inaugural de Portugal, por exemplo (evitei escrever “na desgraça do…”, fui simpático) só dei pelo cartão amarelo ao Bernardo Silva porque as minhas luzinhas piscaram e levantei os olhos a tempo de ver a repetição. Bem mostrado, sim senhor!

Só tenho pena que o jogo, pela sua natureza, não dê mais razões às minhas luzinhas para piscar mais vezes quando entra um golo…

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