Quando começou a operar o programa Volta, as reações dos portugueses oscilaram entre a expectativa e o pessimismo. Como quase sempre, as opiniões dividiram-se. Uns acreditaram que a ideia era positiva: ecologistas, defensores da economia sustentável ou da economia circular, optimistas inveterados. Outros desconfiavam: “aldrabice”, manipulação perversa da grande distribuição alimentar, desejosa de aumentar os preços, a coberto de uma ideia pseudo generosa. Quem se iria incomodar a carregar um saco com duas dúzias de garrafas plásticas ou latas de alumínio, perder algum tempo e receber 2,40€?
Posto em prática o programa e ultrapassado o problema das garrafas e latas amachucadas, veio o primeiro efeito colateral: dezenas ou centenas de indigentes e sem-abrigo começaram a vasculhar os recipientes de lixo, coletando garrafas e latas, que os outros cidadãos, indiferentes aos escassos cêntimos de ganho, continuavam a colocar nos contentores amarelos.
O resultado foi o nascimento de uma nova atividade económica, rapidamente designada mineração do lixo, cuja consequência principal foi o aumento significativo do lixo espalhado pelas ruas da cidade, com a inerente proliferação de maus cheiros, insetos e cães vadios e a sobrecarga dos serviços municipais de recolha de lixo.
Esta nova atividade económica tem algumas semelhanças com a dos chamados arrumadores de automóveis: trata-se de atividades imaginativas, de alguma utilidade social, assentes numa verdadeira iniciativa privada, que ocuparam espaço vazio, permitindo completar os escassos rendimentos de uma população marginalizada pela economia formal, e que lhe possibilita uma sobrevivência um pouco menos penosa.
Muitos cidadãos manifestam preocupação legítima com uma atividade que se lhes afigura indigna e inaceitável, numa sociedade que se quer justa e moderna. A sensação que se tem é de que se envergonham dela e daqueles que a ela recorrem. É compreensível, mas fazem alguma coisa para pressionar o Estado e os municípios, no sentido da criação de alternativas de sobrevivência para estas pessoas? Ou querem apenas eliminar a atividade - ou escondê-la? Viveriam as pessoas que a ela se dedicam melhor sem ela?
Em vez de uma crítica destrutiva, talvez fosse de pensar se não seria possível minorar os inconvenientes para a limpeza urbana e a saúde pública, e melhorar as condições de exercício da atividade: por exemplo, se as autoridades locais distribuíssem pelos moradores sacos para juntar garrafas de plástico e latas, que os atuais mineiros do lixo recolheriam e entregariam no Volta, recebendo o valor correspondente. Seria uma forma solidária de transferir recursos de gente que pode dispensar facilmente o valor da troca para gente a quem este valor, por pouco que seja, pode completar um rendimento insuficiente.
Condição necessária para o sucesso da medida seria não ceder à habitual propensão nacional para a burocracia, criando regras e inventando licenças, que absorveriam as parcas receitas da atividade.