Luís Montenegro passou dois dias em Anadia a construir uma narrativa e a destruí-la ao mesmo tempo.A narrativa era esta: o governo é reformista. Listas de medidas e discursos dos vários Ministros que serviam o propósito. Mas o congresso aconteceu um dia depois do chumbo da lei laboral e Montenegro fez o que faz nos debates quinzenais: culpou o PS e o Chega de bloquearem as reformas. Forças “obstinadas”. Partidos “presos ao passado”. Uma “realidade política” que impede o governo de fazer o que quer fazer. PS e Chega não querem de facto mudar nada, estão conformados com o estado das coisas, nisso Montenegro tem razão. Mas isso não resolve a contradição. Ou o governo reformou Portugal, e então um revés parlamentar é apenas um revés. Ou o governo é refém de uma oposição que bloqueia tudo, e então os discursos de Anadia são ficção. Montenegro quis as duas coisas ao mesmo tempo. Ao fazer isso, confirmou involuntariamente o que a Iniciativa Liberal lhe diz há dois anos: que o reformismo do PSD é uma narrativa, não uma realidade. E isso leva-me à questão: o que considera este Governo como uma verdadeira reforma estrutural? Reforma estrutural é quando o Estado recua e os cidadãos avançam. É retirar ao Estado o controlo que acumulou durante décadas e criar resistência nos que vivem desse controlo. É a convicção de que os portugueses, com menos Estado a decidir por eles, fazem escolhas melhores do que qualquer governo alguma vez fará por eles. E é a coragem de aceitar perder votos hoje para ganhar um país melhor amanhã. Mas aquilo que o governo lista como reformas são coisas que o Estado faz dentro da sua própria lógica, sem alterar a fronteira entre o que é público e o que é privado, sem libertar mercados, sem reduzir a dependência de decisões tomadas pelos Ministérios em Lisboa, alheados da realidade dos portugueses. A prova chegou no discurso de encerramento, quando Montenegro finalmente teve campo livre. Sem parlamento, sem negociação, sem PS nem Chega a bloquear, o grande anúncio foi um fundo soberano para o Estado entrar no capital de “empresas estratégicas”. O BPN custou aos contribuintes mais de seis mil milhões e o BES oito mil milhões. A TAP custou mais de três mil milhões em ajuda pública. A Efacec foi nacionalizada por ser “estratégica”, não cumpriu nenhum dos objetivos segundo o Tribunal de Contas, e custou quinhentos milhões. Cada um destes casos começou com a mesma palavra. Um Estado que não garante uma consulta de especialidade em tempo útil, que não tem médicos nas urgências, que não consegue reformar a segurança social, a justiça, a proteção civil, nem sequer a si próprio, vai agora gerir participações em bancos e aeroportos. Já sabemos como acaba: cargos para nomear, interesses para proteger, contribuintes a pagar e uma palavra grande, “soberania” para tapar tudo. Portugal merece um governo com ambição real, que governe com coragem, que faça as reformas que custam, que pense nos portugueses e não no ciclo eleitoral. Se Montenegro quer vitimizar-se, que apresente as reformas verdadeiras ou que aprove as da Iniciativa Liberal. Se quer cantar vitória, que assuma que dois anos de ajustes e remendos não é o mesmo que transformar um país. A Iniciativa Liberal sabe o que é uma reforma. Sabe o que custa. E sabe que Portugal já não pode esperar por um Governo que confunde coragem com discurso.