Aos dias de Bruxelas, intensos por razões de mudanças familiares, veio suceder-se uma breve tarde e noite em Braga. Tenho as melhores recordações de Braga e, sobre o prémio que ali fui receber, apetece-me, com humor que não exclui a gratidão, citar um passo hilariante de Camilo, no seu No Bom Jesus do Monte:“Então é que eu me senti maior que a minha estatura! Debaixo dos meus pés parecia-me sentir terramotos: o globo não podia com a minha glória, e dava de si! Os astros saíram naquele dia a verem-me; e o Sol era uma lanterna de furta-fogo em comparação com os sistemas solares que eu tinha cá dentro!”Mas, uma vez mais, como em todas as anteriores visitas minhas a Braga, não tive tempo para passear a pé e fixar (só assim se consegue) os caminhos e os atalhos de uma cidade. Uma cidade que eu tenho vindo a admirar à distância, como no dito popular “ver Braga por um canudo”.Em anos que não posso agora precisar, visitei três feiras do livro, estive na Universidade do Minho, numa homenagem ao professor Victor de Aguiar e Silva, assisti no Theatro Circo à entrega de um Prémio dst e conversei, na livraria Centésima Página, sob a orientação do meu amigo professor Cândido Oliveira Martins, com leitores e talvez futuros leitores.Mas de todas estas incursões, não guardei na memória qualquer mapa mental da cidade, que me permitisse orientar-me num percurso tão difícil como o de ir do Campo da Vinha à Avenida da Liberdade!Que vergonha! Eu, que me movia em Bruxelas, entre todos os meus polos de atração, com certeza e ligeireza; eu, que sei deambular por Paris (flâner, como se diz) com memórias de muitos anos passados a trazer-me recordações a cada esquina, pois não sei entender os caminhos de Braga!As minhas desculpas a Braga e aos meus amigos, ao Cândido Oliveira Martins, à Isabel Cristina Mateus, ao José Manuel Mendes, mas eu sou aquele atontado cosmopolita que não conhece as ruas do seu país.Nem tive tempo de visitar o Muzeu, de que me disseram tanto bem! Tenho realmente todos estes anos estado a “ver Braga por um canudo"...Que Camilo, lá das alturas, e o senhor presidente da Câmara de Braga, lá dos seus paços municipais, possam perdoar-me!Eu, por mim, voltarei a Braga e espero, então, poder responder, altaneiro, ao queirosiano Alpedrinha d’A Relíquia: mas o que é que pode ser melhor que Braga?Jerusalém não, com certeza.