A morte de um jovem ciclista, atropelado durante uma etapa da Volta a Portugal, é uma tragédia que nos deve deixar a todos profundamente consternados. Antes de qualquer outra consideração, há uma vida perdida, uma família devastada, companheiros de equipa em sofrimento e uma modalidade de luto.
Mas o respeito pela vítima exige também que se procure compreender exatamente o que aconteceu e que as responsabilidades sejam rigorosamente apuradas.
Ao longo dos anos tive a oportunidade de acompanhar cerca de uma dezena de etapas da Volta a Portugal. Sempre reconheci a competência, o profissionalismo e a enorme dificuldade da missão desempenhada pela GNR. Garantir a segurança de uma prova que percorre centenas de quilómetros de estrada, atravessando localidades, cruzamentos em zonas urbanas e rurais, constitui uma operação de enorme complexidade.
Contudo, essa experiência permitiu-me também observar situações que sempre me causaram preocupação. Vi, algumas vezes, viaturas saírem de habitações, propriedades ou pequenos caminhos laterais para estradas onde, pouco tempo depois, passaria a Volta.
É evidente que não é possível colocar um elemento das forças de segurança em cada garagem, caminho particular ou acesso rural existente ao longo de uma etapa. Mas é precisamente por isso que uma prova desta dimensão necessita de um sistema de segurança que articule eficazmente organização, forças policiais, autoridades locais, sinalização e informação às populações.
O acidente agora ocorrido coloca uma questão particularmente grave: como foi possível que um veículo exterior à prova circulasse em sentido contrário numa estrada onde ainda se encontrava um ciclista em competição?
Esta pergunta tem de ser respondida.
Importa saber onde entrou a viatura, em que circunstâncias o fez, se existia sinalização ou controlo naquele acesso, se foram respeitadas as determinações das autoridades e, sobretudo, se ocorreu alguma falha no dispositivo destinado a garantir que a estrada permanecesse reservada à competição até à passagem do último corredor.
Não devemos antecipar conclusões nem procurar culpados antes de conhecidos todos os factos. Mas também não podemos aceitar que uma tragédia desta dimensão seja tratada como uma simples fatalidade.
A Volta a Portugal é uma das maiores manifestações populares do nosso desporto. A sua grandeza implica igualmente uma enorme responsabilidade.
Por respeito pela memória deste jovem ciclista e para que uma tragédia semelhante nunca mais aconteça, é indispensável apurar tudo. Sem precipitações, mas também sem silêncios.
Manuel Brito, antigo presidente do Instituto Nacional do Desporto