Uma Europa à procura da paz ou em busca da guerra?

Publicado a

A Europa acordou para uma realidade que julgava pertencer aos livros de História. Durante décadas, habituámo-nos à ideia de que a guerra era um fenómeno distante, periférico, quase improvável no espaço europeu. Hoje, essa convicção está sob pressão. Entre a intensificação da guerra na Ucrânia, o reforço dos orçamentos militares e a crescente tensão no Ártico, onde a estratégica Gronelândia ganhou protagonismo mediático, impõe-se uma pergunta desconfortável: estará a Europa a reforçar a sua Defesa para garantir a paz ou estará a entrar numa lógica de confronto permanente?

Se refletirmos sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia, podemos concluir que não foi apenas uma agressão territorial. Foi um choque psicológico para a União Europeia. A interdependência económica e o diálogo diplomático revelaram-se frágeis. A guerra regressou ao velho continente, não como memória, mas como realidade.

Perante este cenário, os Estados europeus reagiram com uma clareza raramente vista nas últimas décadas: aumentar orçamentos de defesa, modernizar forças armadas e reforçar a cooperação no âmbito da NATO. Países tradicionalmente prudentes em matéria militar alteraram paradigmas estratégicos quase da noite para o dia. A palavra “dissuasão” voltou ao centro do debate público.

Mas reforçar a Defesa significa desejar a guerra? A resposta não é linear.

A História demonstra que a fraqueza percebida pode ser um convite à agressão. A paz europeia do pós-Guerra Fria assentou, em larga medida, na garantia de segurança transatlântica. No entanto, as incertezas políticas nos Estados Unidos e a crescente competição global obrigam a Europa a assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança. Não se trata de abandonar alianças, mas de reduzir dependências.

O caso da Gronelândia ilustra bem a mudança de paradigma. A ilha, território autónomo do Reino da Dinamarca, ganhou relevância estratégica no contexto da disputa pelo Ártico, onde rotas marítimas emergentes e recursos naturais despertam o interesse de várias potências. O Ártico deixou de ser apenas um espaço remoto e tornou-se parte do novo tabuleiro geopolítico. E a Europa, queira ou não, está nesse tabuleiro.

A chamada “corrida europeia ao armamento” é frequentemente apresentada como sinal de militarização preocupante. Contudo, é igualmente possível interpretá-la como ajustamento estratégico a um ambiente mais instável. A questão não é tanto o volume de investimento, mas a sua finalidade política. Se o reforço militar for acompanhado por diplomacia ativa, coordenação europeia e compromisso com o direito internacional, poderá funcionar como instrumento de estabilidade.

O risco surge quando a narrativa pública resvala para uma lógica de blocos irreconciliáveis, onde cada movimento é visto como preparação para o inevitável confronto. A segurança, quando baseada exclusivamente na força, pode alimentar ciclos de desconfiança. A segurança, quando combinada com diálogo e mecanismos de controlo, pode sustentar a paz.

A União Europeia nasceu como projeto de reconciliação. Essa identidade não desapareceu. O que mudou foi o contexto estratégico. A defesa europeia não está, necessariamente, em busca da guerra. Está, isso sim, à procura de credibilidade num mundo onde a força voltou a contar.

A verdadeira questão não é se a Europa deve investir na sua defesa. É se conseguirá fazê-lo sem perder a sua alma política e se tem a certeza de que o poder existe para proteger a paz e não para a substituir.

Talvez seja essa a linha frágil que definirá o futuro do velho continente…

Diário de Notícias
www.dn.pt