Uma cruzada alegre

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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Domingo, 13 de Setembro, as eleições na Suécia encheram de alegria a nata da comunidade político-jornalística europeia e doméstica. Alegria pela vitória da coligação centro-esquerda sobre a coligação do centro-direita, por 176 parlamentares contra 173. Ainda que não tivesse sido uma vitória esmagadora, sempre era um tiro na extrema-direita, com os Democratas Suecos (nome “enganoso” para um “partido fundado por neo-nazis”) a perderem 3% dos votos e 11 lugares no parlamento.

Segundo um censo de Dezembro de 2025, cerca de 20% da população sueca nasceu no estrangeiro – facto de que os “emissores de discurso de ódio” locais, em abjecto populismo, prontamente se serviriam para explicar a vitória à esquerda.

A alegria sueca só esmoreceu quando, no Domingo, 20 de Setembro, a extrema-direita voltou às vitórias. E logo na Alemanha, o maior e mais importante país da União Europeia, e também o mais atreito a comentários – isentos, evidentemente, de qualquer populismo – sobre o “renascimento nazi” e as suas tenebrosas consequências.

Então espalhar o medo não era aquilo de que os chamados “partidos do sistema” acusavam a extrema-direita? Seria possível que estivessem agora a usar a receita dos inimigos? Não, aquilo não eram campanhas de medo, apenas chamadas à realidade do ignaro povo, que, aparentemente, não sabia que a extrema-direita era um misto de Inquisição e nazismo e que os partidos soberanistas ou nacionalistas, lacaios dos intuitos belicistas anti-NATO da Rússia, estavam todos comprados pelo “Grande Urso”.

E assim segue a cruzada alegre, somando alegres cruzados: Alexandre Moraes, Macron, von der Leyen, até o nosso Ministro da Administração Interna, todos engrossam o sacro exército de políticos, jornalistas, comentadores que, sob a bandeira da Democracia, se assanham no “bom combate” contra o “populismo de extrema-direita”. Tudo para salvar o povo – e se salvarem.

Mas o que é que se passa então com o insensato povo, que parece zombar da fé e dos sábios ensinamentos do poderoso “alto clero” que o quer continuar a guiar? O que é que veio a ser aquilo no Domingo, na Alemanha, no Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental? A extrema-direita em primeiro lugar na eleição regional, seguida pelos sociais-democratas? Os democratas-cristãos a não atingirem sequer os 5%, a percentagem mínima para poderem ter representação no parlamento regional? Nunca tal tinha acontecido desde 1949.

E também perdiam em Berlim. Mas em Berlim sempre perdiam para Die Linke, a Esquerda, o que não era tão grave. Enfim, ficavam em segundo lugar, com 18,8%, seguidos pelos infiéis da Alternativa para a Alemanha, com 16,3%, e pelos simpáticos Verdes, com 14,3% (ainda que os caridosos sociais-democratas tivessem caído para 12,1%).

O chanceler Merz, talvez consciente do buraco em que metera o partido de Konrad Adenauer, apressou-se a reunir o Estado-Maior do partido que governa a Alemanha em coligação com os sociais-democratas e a confessar que, para ele, o Domingo eleitoral tinha sido “um desastre”.

Desastre de que não conta responsabilizar-se. Lá por ter batido o recorde de impopularidade da Alemanha pós-1946 (só 13% dos cidadãos aprovam a sua governação), não queria dizer que tivesse de dramatizar as coisas com uma demissão.

Prometera reduzir a AfD a metade e “fazer reformas” e os extremistas da Alternativa para a Alemanha tinham duplicado? E então? Melhor continuar alegremente a barrá-los com linhas vermelhas e a apelar ao medo.

Tudo menos tentar perceber o mundo e os problemas reais da sociedade alemã.

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