Ainda nem assentara a poeira sobre a maior derrota política do Governo de Luís Montenegro e a ministra do Trabalho já fazia saber que a reforma laboral não morreu. Pelo contrário. “Quanto mais depressa, melhor”, reforçou esta semana. Depois de quase um ano de negociações, polémicas, manifestações, duas greves gerais e um desgaste político considerável, Rosário Palma Ramalho não quer deixar cair o dossiê que mais consumiu a energia do Governo.A persistência é compreensível, esta é talvez a maior bandeira de um Governo que se quer provar reformista. Menos compreensível, no entanto, é a pressa nesta altura, com o trauma ainda presente.A reforma nasceu torta e acabou chumbada no Parlamento. Ainda assim, o Governo avisa que se prepara para regressar à carga, desta vez com medidas avulsas. Em cima da mesa continuam a estar mexidas como o alargamento dos contratos a termo, a flexibilização das regras do outsourcing após despedimentos, o regresso do banco de horas individual e alterações às licenças parentais. Pelo meio, há uma reunião da Concertação Social marcada para 15 de julho, a primeira depois do chumbo, que deverá servir para preparar a nova ofensiva legislativa, provavelmente já depois do verão.A ministra insiste que Portugal precisa de modernizar a legislação laboral, aumentar a competitividade das empresas e adaptar-se aos desafios do futuro. Já conhecemos o discurso, e ele é legítimo. Mas há outros sinais que nos chegam do mercado de trabalho e que talvez merecessem também respostas de quem quer tanto mexer na lei.Enquanto Palma Ramalho prepara a segunda tentativa da sua reforma, ficámos a conhecer esta semana a realidade denunciada por enfermeiros que asseguram a linha SNS24, que dizem que a empresa através da qual prestam serviço lhes desconta o tempo que demoram a beber água, comer qualquer coisa ou simplesmente ir à casa de banho. São trabalhadores independentes, recorda a empresa, como se o estatuto retirasse necessidades fisiológicas.Ora, talvez este caso diga mais sobre o estado do mercado laboral português do que muitas páginas de uma reforma. Os trabalhadores independentes são hoje uma fatia crescente da força de trabalho e representam também a face mais vulnerável da precariedade. Quando o debate político se concentra quase exclusivamente na necessidade de flexibilizar regras para aumentar a competitividade, corre-se o risco, como tem acontecido com o Governo neste processo, de parecer menosprezar uma parte fundamental do mercado de trabalho: os trabalhadores. E é difícil convencer estes de que é preciso mais flexibilidade quando alguns já sentem que até o tempo para um xixi lhes sai do bolso.Uma economia moderna mede-se também pela forma como trata quem trabalha. E uma competitividade que castiga uma pausa para ir à casa de banho talvez não seja exatamente o futuro do trabalho que valha a pena acelerar.