A democracia portuguesa foi-nos revelando, ao longo de meio século, muitas personalidades. Muitas delas não o poderiam ter sido antes.Vivemos, agora, o momento que ficará indelevelmente marcado pela notoriedade e pelo exercício do poder por cidadãos que não viveram, ou não têm memória, do país que fomos até 1974.Mas, é importante lembrar, personalidades de dimensão ímpar foram, por décadas, escondidas do país e só a democracia nos permitiu conhecê-las.E foram muitos destes que, após “o dia inicial inteiro e limpo”, construíram os alicerces do regime democrático, permitindo-nos viver este meio século de liberdade.Se, hoje, não temos dúvidas de que queremos viver num Estado de Direito, que a imprensa livre nos é essencial ou que a fonte de legitimidade são eleições livres num quadro de democracia representativa, se não temos dúvidas, é porque outros, sobretudo na primeira década da nossa democracia edificaram, quantas vezes do zero, as traves-mestras do nosso atual modo de viver coletivo.Quando se completa um século sobre o nascimento de António Almeida Santos (15/2/2026) sentimos a gratidão pelo que fez por Portugal, por todos nós, e sentimos a tristeza de já não podermos contar com o seu saber e conselho. Sentimos, como cravos na cruz, um certo esquecimento.Esquecimento que, aliás, não é o único.E estes “esquecimentos” são sintomas de uma sociedade de memória e sem alma.Faz sentido lembrar aqui uma frase que Almeida Santos disse muitas vezes: “Os amigos não se homenageiam, lembram-se.”Almeida Santos foi tudo neste país.Advogado ímpar, combatente da liberdade, construtor da democracia, ministro, deputado, presidente da Assembleia da República.Culto e inteligente como poucos, soube colocar-se ao serviço dos outros.Edificando parte significativa do ordenamento jurídico em que vivemos, assumindo as maiores responsabilidades públicas nas situações mais difíceis, afirmando o Parlamento como centro plural da democracia portuguesa.E, simultaneamente, ou até precipuamente, estando sempre disponível para o seu PS.Para a trincheira onde entendeu fazer o seu combate pela liberdade, pela igualdade e pela justiça. Nos bons e nos maus momentos nunca António Almeida Santos faltou a Portugal, ao PS e aos socialistas.Estivesse em causa a representação nos mais exigentes areópagos, ou na mais pequena e remota aldeia ou município. Eu vi, vivi, e não esqueço!E, também, sempre pronto a dizer presente à sua Coimbra do coração e dos afetos.Sempre a construir a democracia.Das suas “futuras” saiu grande parte do país que somos hoje e, também, as palavras amigas, sobretudo nos momentos difíceis.Das suas “futuras” saíram muitas das leis da República.Das suas “futuras” saíram milhares de páginas dos seus livros, infelizmente pouco conhecidos.Em todos eles, sempre a memória andou de par com o futuro, sempre a lucidez crua da análise se conjugou com a esperança, sempre, ao desvario do mundo se contrapôs a obsessão da igualdade.De todos os seus muitos livros, destaco dois títulos que são, em si mesmos, um retrato do seu autor. Pare, Pense e Mude e Por favor preocupem-se!.E, “se os amigos se lembram”, nada melhor que lembrar o que António Almeida Santos escreveu: “Até que a pena me doa… escreverei. Escreverei como sempre escrevi, a tentar furar o silêncio ou a indiferença ou a contrastar a injustiça.”Advogado e gestor